quinta-feira, 17 de novembro de 2016

XVII




Hoje é o dia do último capítulo,
Da última cena
De um filme que já terminou
Hoje é o dia do último flash,
Da última estrela
De uma noite que já se apagou
Hoje é o dia da última lembrança,
Da última espera
De um inverno que já hibernou
Hoje é o dia do último sonho,
Da última presença
De um quarto que desmoronou
Hoje é o dia do último cortejo,
Da última centelha
De um idiota que já tombou

Hoje é o dia do último dia
Da última vez
De todas as vezes
De uma vez por todas
De todos os dias e meses
Do futuro que já passou.


domingo, 13 de novembro de 2016

Andróide




Antes eu cheguei a pensar que você era um andróide
Depois achei que era só uma questão de sorte
Agora já posso confiar em você,
Porque sei que teus olhos são completamente falsos.

É bastante útil ser um robô, talvez
A memória é só um bolo de dados
Os rumos mudam com apenas um chip
Os sonhos são um erro do sistema, que pena.

Mas nem tudo é perfeito, eu vi
Certa vez o algoritmo falhou
Na tela dos teus olhos era o Amor
Quem estava ali

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Enigma




Hoje eu morri como uma abelha
do ser pleno ao nada
no raio e luz de um tapa!
- vibrante, estridente, ligeiro.

Morri como quem sabe seu último dia,
seu último voo.
Morri melhor!
O sol fez-me mais sensível e carinhoso,
meu último pouso
na coroa da flor e da vida.

Deixei meu nome
suspenso. -
Terão de haver-se com a dor desse pêndulo.

(Terão de esquecer da felicidade o porquê).


domingo, 21 de agosto de 2016

Dia 21




hoje quando olhei-me no espelho
eu vi a pluma da saudade.
o ar limpo da manhã, a luz lilás e clara, o vigor das mãos,
não bastavam.
senti que a ilharga da mesa e o caibro da sala tinham também a mesma voz
do rangido
antes de estalar, rompiam-se na infinitude
da pequenez
e as fibras minúsculas
da presença grunhiam.

hoje, estar de pé não bastava
senti o poente ter mais cedo comigo
e tive medo de não estar
fez-se um mapa de ruas vermelhas
na pequena vila dos meus olhos,
mas haviam postes de luz dourada

eu vi teus olhos de tungstênio
eu vi nascer a noite como se a noite
houvesse implorado a nascer
teus passos eram uma meninice do mundo
e deixavam sobre as ruas o brinquedo
do teu rastro

tanta doçura entrepôs-se ao espelho,
estava longe a hora do sossego
e perto demais teu olhar.

sopesei a pluma da saudade,
era de suportar, afinal
já estou velho demais para não saber a hora certa de ruir