quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Sempre Mais

A diamantes que não sei traduzir.
Aos olhos que eu amo.
A Ti.




Sei que não dizes. Ou melhor, dizes bem - mais -, não dizendo.

Sei que te cabes melhor os Issos na boca que os nomes comuns.

Vejo! Com meu verde gotejando no teu azul. Vejo sempre com Saudade.

E teu Amor incomum, incomunicável me vê. Descerra. Destrói.


Sabes doer, arder, abrir. Sabes mais e melhor que eu não Saber.

Sabes suspender o Abismo com o toque sem pele dos teus olhos.


Sabe-me Paz quando a Serpente se enrola Aqui, bem aqui, e se mexe. Dentro.

Eu: ritornelo Te esperando. "Mais! Disso Mais, Mais, senão Morrer..."



(As vezes enfeito a tolice. Tolo mais ainda. Fraco:


Um barbante arrebentando. Um retardo. Dardo Alvo Falho. Pária).

És mais Hilda do que eu pensava. Sabes de amar tulipas e avencas.

E fodes com a carne, com ossos. Com destroços: os Meus, os Nossos.



O que não sabes? Se houver das ignorâncias a mais bonita das infâncias: Tu.

Fragilidade florida em chumbo. Pesadume em leves tons e plumas:
Tu.

Sabes? Queria viver ao teu lado. Queria soprar luz por cima de Ti.

Falo esse Amor apertando os olhos. Corridos de tanta felicidade. Eu amo:

Como a criança de mãos cheias de cacos e sangue, diz: Olha: Diamantes


Parte de mim: perde-Te. Parte: Medo. Engole-Te. Foge. Molha.

Tem pedaços também. Devassos, devassados, Primeiros, putos, Virgens.

Um lugar bonito. O Nascimento: Tu me encharcas a alma de chão.

Meu lirismo parco: fazes pó com ele. Sob teus pés aveludados me drago. Inteiro.


Delírios menores também. De um homem por vezes nu, ou cru, ou sujo.

O ciúme infante de um passado em ausência. O gelo de um futuro que: Talvez


Outros bem maiores. Felizes. De tardes vagabundas no outono. Um pouco de

Mato. E as narinas perfumadas de silêncio. Um naco de Vida qual todas as


Fomes invejam. Mais: nada tão-só outra vez. Nunca mais.


Tua falta: meu gigante de olhos vermelhos. A memória triste em sépia.


O mesmo corte à noite.  Túrgido. A morte. O vento.
Meu uivo. As ruas vazias.

É disto que me arrasto. Sem passo, Largo. Quieto, Grita. O pólen do Tempo.


E no revés teu Nome funde-se no Carinho. Teu gesto recolhe as Farpas.



Eu dobro a Insegurança. Reviro-a em teu nome. Entrego-a na forma de Humor.

Senão Tuas formas, Teu neutro que me apaga. Tua terra inóspita, acredite.

Que há de mais bonito. Que há de mais generoso de Tua parte. Tua mágica.

Faz-me menor e Melhor. Teu espelho Branco. Torna-me cativo e Menino.


Sabes? Se quiseres, agora pode cortar meus braços também. Agora somos.

Abraço. Podemos nos rir. Tropeçar em mais de dois pés. Soprar mansinho


A vela de duas solidões verdadeiras. Disse-Te: Desejo. Pude soluçar um sonho!
 
Quem sabe? De fazer-nos um rasgão no céu. Desacordar aquela estrela. Nós Dois.


Lembra no rosto o sal no escuro? É mais que a verdade. É amor. Issos na tua boca.

Que a minha não sabe. De promessas que são vestes no fogo. Não iludo-me.


Torturo-me. Os espinhos são doces. E as manhãs tranquilas: chicotadas. Adoeço.

Afoga meu eco, este barulho mentido, nas tuas gotas de insanidade. Apaixona-Te.


Deixa-me. E Deixa-me sempre mais perto. Até respirar nos teus pulmões.

Até pulsar nos teus corações. Deixa-me. E Deixa-me vadiar mais em Ti.

Sobrar nos avessos, calar na borda da tua Nebulosa. Cozer nos teus braços.

Deixa-me. E deixa-me falecer no teu gozo. E deixa-me morrer e viver em Ti.

Arriscar meu sono em todos os amanheceres. Tua luz, tua Lua. Sempre Mais.


Eu sei. Nada vai dizer o que engasga. Vou lá. Polir a Dor. Eu volto. Eu Te amo!




 






segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Angst, kampf, luft. Angst, kampf, luft. Luft, luft, luft.

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Quando as razões são maiores que você. Quando elas não são?
Quando nós tentamos dar nós nas cordas do tempo. 
Como se pudessem abreviar.
Quando o silêncio agora é já a ausência depois.


Assim comprimido, quanto que é possível? Nenhum ligeiro conforto. Não sei qual carinho me faz. Quando é amanhecer: os bêbados caíram e o débeis ainda dormem. Talvez o calor da louça. Já o álcool me sofre. Nenhuma alusão a mim. Não vai se encontrar, não adianta. As somas das desimportâncias, o terror dessa conta, elas terminam na importância que fazem. Agora que já não dá para esquecer, para saber. Quando se perde dá para se achar: não sair do lugar, para sempre. Nem sempre dá. Quando estamos juntos? Quando separados? Com qual fidelidade eu alicio a violência? Não vou lembrar dos olhos, nem das mãos, eles estão cobertos de sentimento. Eu estou farto: eles mentem. Eu sou uma sobra: o balcão, as mesas vazias, a camisa impregnada de fumaça, um som, uma solidão. Quando está confuso, quando os números se tornam máquinas idiotas, quando eu estendo os braços observando as veias do tédio, quando eu furo a realidade, o que me salva, o que me liberta é a porta da frente, deixando atrás apenas um nome, um vulto, uma página em branco e surrada. Sabe ouvir uma coisa? Eu não sou feliz sem ti. O tempo vai entulhando tempo sobre nós. Uma coleção esquecida de vezes e mais vezes.... Tem sol do lado de fora, onde tudo é normal.... Esses quatro pontos eu aprendi com Whitman, não são reticentes, são mais justos com os lapsos que cortam as falhas que cabem.... Outro dia eu tinha onze anos. Quando que... Me bateram pela primeira vez. De raiva que apoiada na força não doeria tanto se não fosse com o próprio coração dele. Logo meu pai entrou no quarto chorando, pedindo desculpas, como se aqueles tapas tivessem sido piores que a raiva com que erguia as mãos. Isso sempre doeu muito mais: a mão hasteada que não descia de tão covarde. Essa surra é que me chorava. Ele não podia bater, então esmurrava a si mesmo com as luvas de uma culpa inútil. Com tanta força, tanta força, que parecíamos de gesso enquanto o branco de nossa estátua vertia um negro encharcado de mágoa. Eu não saberia bater nele, chutar uma vida que ainda valia a pena, de algum jeito, porque somos acolchoados de um tecido vivo. Então eu batia em mim. E deixando de bater no que feria aprendi que apanhei o dobro das vezes. O meu quarto restava um claustro, a coleção colorida de histórias infantis se tornava o espelho de quem se derrotava com as mãos pequenas que não podiam segurar o pesar descabido que caia do rosto. Até que eu pude matá-lo. Quando ele morreu pra mim. Quando a correria da casa e as alegrias do quintal, quando algumas vezes eu fui preferido e ele meu único herói, todo esse tempo caiu ajoelhado sobre um corredor vazio, frio, morto também. O que me custou os sonhos, porque o descanso da vigília era só o abrir das cancelas para um rodeio dos pesadelos. Quando dia, provar ao resto do mundo que eu não estava doente, e à noite ser costurado vivo por cada minuto de horror, com as linhas de quem ensinando apenas a dor deixou um rastro de uma maldita presença cuja falta era mais doída ainda. Não lembro da última vez que nos olhamos nos olhos, deve ter sido o instante da última cor nos olhos dele, antes de tê-la recortado e tingido os meus. Hoje tenho uma cor viva no centro de onde saem afluentes vermelhos até as bordas.... 
Hoje as noites ainda são farpantes; também sofro de encanto com vezes do dia; e rimo o desatino das coisas com algum qualquer de alívio.... Aqui o chão é cimentado e nulo, as janelas estão quebradas e eu perco a minha migalha sóbria na palidez esquecida das paredes. Nada me falta. Eu abri a porta da frente mais um vez. Eu conheci uma menina. Ela fugiu, correu até sumir. Nunca deixei-me fazer o mesmo, eu aprendi a matar! Hoje as noites ainda são calmantes. Ainda é de aprender: a ficar, a viver.


segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Verdes ignorâncias

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À noite as palavras assazem-me, muitam-me
(sobre um copo pequeno e dose graúda de canha,
vezes redobradas pelo esvaziar, a troca
do vazio de um em outro, fartando a falta com nada)

Multiplicado em silêncio: teu deserto, teu silício,
tuas colinas de sal, teu rei oásis, teu ácido,
tua onda revolta, teu estouro, tanta
e insuportável sede, tantos os revanches da calma

Sorver o leite doce que a manhã do corpo verte
E suspirar no canto dos olhos as minhas cicatrizes: Tantas agonias.
Elas ventam molesta e suavemente,
onde se arrastam, onde o poente passa,
onde nada tem lugar

Sabem estes cordéis amarrar o instinto
desabitar... Tecer redemoinhos novos,
novos caminhos, novos outros sem mim felizes,
Sabem teus anéis desanimar, desalmar, arruinar
sabem deixar as vagas e correr ilesos, sabem-se negros
sabem-se livres, onde nada fica atrás, onde nada resta
onde a boca nega

Onde são teias que a solidão alimenta,
Eu sou uma aranha carente.
Lambendo as poças das quais tantas vezes me tiraste:
Tantas vezes fui mosca
Tantas outras ninguém!

Da moléstia de ser cigano, o abandono:
urdido em volts carinhosos que bebi no teu colo. Sim, outra vez tu:
como pôde descobrir o cão debaixo dos meus olhos?
E dispor da lágrima aguda que... Sim, eu choro. Já sei.

E não saberia embriagar-me de coisa outra.
De mim um outro em mim que não olvida, não espera:
Senão tuas entranhas, perfumes, pedaços. Tua fome.
Senão uma simples calha, um gafanhoto, um lençol
E o que treme e seca até quando é alívio que se derrama.
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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Das histórias inúteis

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Já não havia manchas de sangue: mais
só resquício, memória pálida,
alguma guerra outrora marcada e viva
de onde sobrevim exausto, definhado

As folhas secas do chão qual espinhos
cochilavam as feridas da queda
E as feras espreitantes desdenhavam
a morte desvalida de um animal daninho

Fraco, nem de alimento servia aquele fim
Se comido, viria à tona vomitado
Se deixado, viria impregnar com podridão
A epiderme úmida daquela selva nutriz

Nem de morte, nem de cólera...
Apodreci num sonho, num encanto semi-heroico
Retorcido até o limite dos ossos,
Acordei sob luz de fada e pérola

Era feto, emudecido, de carne desnuda
Suja. Coberta já de um leite iluminado
Adivinhando a água pura, prenunciada
No barro macio que meu corpo retornava

Tal vigor ressurgiu naquela outra vida,
que um despudor viril subjugava a mácula
das lutas, o rastejar da sorte, o ínfimo da dor
Apunhalava em si qualquer ingratidão

Serviu-se de mim banquetes a todos os fins,
dos começos beberam-me uma esperança nervosa
Daquele mito invadi o rosto dos dias,
rasgando o canto dos lábios até doer o riso

Não rendi, não fora rendido.
De um homem que contava histórias:
liquidadas de luz
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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Dos choros que te ensinei a rir

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Das vezes que teus olhos caíram,
e eu os segurei com os meus: diziam
te tortures nunca mais

Teus ocasos feridos...

Achar-te na sala sob a lâmpada fraca
O preto desbotado a verter dos teus mirantes:
eu quis que a lógica fosse ontológica
e a tua tristeza a mais pura das contradições

Eu escorria por dentro, junto a ti
com as mãos perdidas, eu perdia
Até o meu esforço teu cansaço chamar-se ajuda,
sabendo ter com o silêncio a última chance

Depois da chuva, teu sorriso de volta, cúmplice do meu 
Éramos um caminhão de garrafas tombado na rua
Sentados naquela ciranda de cacos
aprendi a amar, ensinando-te a rir

Outras tantas desaprendendo a morrer de frio
Porque teus trejeitos... Teu azul,
a dispersar do poente o vermelho negro...
Porque as pontas dos teus dedos sabiam tudo

Sonhando-me em teu colo, mil vezes no futuro
As estrelas-do-mar choravam em nossos tapetes
Frágeis como uma cordilheira de corais,
Já sabíamos o bastante: Depois de dar as mãos
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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

o mais simples é a flor do que se não diz

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ver as coisas todas livres
aceitar do tempo a passagem

aceitá-la com graça, sem rancor
- como um presente, um carinho -
aceitar a vida

(as cinco linhas mais difíceis)

a noite fria ainda responde, calada
e meu coração quente se agrada e cresce
quando a nuvem esconde a luz morta da estrela
e logo o cinza se esvai,
deixando a luz novamente viva,
daquele brilho mágico e raro,
o meu peito aprendiz e tolo... sossegar

a solidão mais completa, a melhor solidão
é a do amante completamente apaixonado,
que pode acariciar até o espinho mais doído:
que tudo passa, que tudo finda,
que o amor fere e namora a vida

e porque te amo com a cegueira dessa vida
o pior dos deuses já pode rasgar meus olhos...
eu te enxergaria, te encontraria
por muito, muito tempo...
no tempo dessas luzes que não morrem -
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domingo, 7 de novembro de 2010

O dia em que me apaixonei.

Saí de casa pra ir na feira comprar o salame e a cerveja do meu Lizarrazu. Não, não é meu cachorro, é meu marido. Marido marido! não é, mas a gente se ajuntou faz tempo. Quando digo o nome dele as pessoas pensam que é macumba. Eu digo não é não,  tem até um jogador francês com esse nome. É chique, ora. A Cirlene, minha vizinha, dá risada. Essa é descontraída, peida até estendendo roupa. Passei por ela no caminho da feira. Não tinha salame, quer dizer, tinha, mas 'tava mole, eu gosto quando é do duro. Mas a cervejinha eu trouxe, e com esse calor, mãezinha, a cerveja é o céu aqui. No caminho de volta dei uma paradinha no salão da Neide pra saber do Rubinho, marido dela. Já depois de velho, arrumou uma caxumba; e não é que a peste recolheu, 'tá com os bagos inchados o pobre. Mas como diz a Neide, não é problema, Rubinho já 'tava aposentado daquela região. Fui-me embora. Quando dobrei a esquina, bem em frente a vendinha do seu Neco, foi aí que aconteceu o acontecido. Não sei o que me deu, só Deus pra saber, mas tive uma tremedura nas pernas e um disparo no peito, me apaixonei por um burro, na hora. Aquilo sim foi macumba. Nem posso explicar uma coisa dessas. Mas o bicho era forte, tinha um cheiro de força, era um perfume fresco de cenoura, me embebedei naquilo. E tinha os olhos caídos, uma beleza abatida, uma meiguice calejada. Não pude evitar, agarrei a cabeça do burrito, passei a mão naquelas orelhas charmosas e dei um beijinho nas fuças dele. Ele respondeu parecendo amolecer as patas...
Viver é isso, logo passa. Olhei pro lado e ninguém tinha visto a loucura. Voltei pro meu Lizarrazu. Abandonei o burro, apaixonada. Acho que foi a burrice mais linda que já fiz.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

De mais nada que soube dizer

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Penso em meus avós, não sanguíneos, aqueles ancestrais
semi-humanos, semianimais, quando se vestiam de peles
como terá sido, no mais despretensioso instante, não se sabe
                                                                                       [como
se um tropeço, ou fruta despencada na fronte, ou bicho
                                                                                       [desajeitado
o corpo contraiu-se em riso, os músculos desfaleceram
                                                                                       [abertos
de um jeito novo, um novo ser aprendia a rir, sabiam-se
alegres, e talvez mais sábios, mais completos e amenos

Tão distante esse tempo, e tão próximo agora, virgem
tempo que pode dar voltas, alçar voo e retornar
Voltar no primeiro riso infantil, todas as vezes, disso sabemos
Mas imagino a primeira vez de todas elas, primordial
E tenho o sentimento de que breve e passageiro existe algo 
                                                                                        [perfeito
Sobre a terra desses gigantes, um desvio supremo, um vício
                                                                                        [eterno

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Archote: Pedaço de cabo de esparto alcatroado que se acende para alumiar.

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Estive preso, por algum tempo. Um tempo que não se conta, vocês me conhecem. (Ainda não?). Estive preso no reflexo. Do pensamento. Não, não é o pior dos casos, você pode estar preso em coisa nenhuma. Incapaz de saber. Não, não me libertei, expurgaram-me, assim, indeterminadamente. Ainda não sei o que fiz, mas tenho feito alguma coisa. Tenho desfeito. No avesso, ou na contra-mão, ou na tangente do solipsismo, embasbaquei-me com a metamorfose. Acreditei em não poder comunicar-me, errei. Agora ouço a língua das coisas, não as compreendo, mas faz sentido, porque sinto o texto que desliza na textura delas. Outrora, na travessia de uma rua, faziam-se-me um infinito de ideias; agora, nos mesmos passos, na mesma rua, fazem-se-me um infinito de ruas. O tecido áspero da poeira quase invisível; o tecido vestido de moça que me roça sem querer; o tecido em contraste das pedras e das peles é o estudo manco das reflexões. Não pergunto a pedra o que ela quer dizer, pois ela sabe dizer, literalmente: 3kg, gravidade, pedaço, assimetria, raridade, tropeço, descaso, vadiagem. Ela sabe o que quer. 
Não reparava na complexa existência dos bolsos de camisa. Como são esbeltos, e rústicos também. O marsúpio costurado de um botão de rosa. A pequena trouxinha para o dinheiro. O altar de um lenço. O destino, infinitamente discreto, tão dócil e doce para os dedos perfeitos da amada, quando vem deixar algum humilde papel, casualmente. Não, não se trata da lírica dos detalhes, não está no prazer das descrições, está no convívio, no fino tato dos olhos, em toda sinestesia dos átomos. Não é sereno, nem agônico, mas é pleno e pequeno, uma fábrica risonha de relevos mais sóbrios. Um panteão sem heróis.
Não sei. Não sei o que quis dizer.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Porque escolhi não voltar

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Onírico!, as pedras e as águas semi-turvas e
A brusquidão da ruína, a queima
da russa idade a passos asnos.
Como agora do átrio jorra o facínora,
mágoa vestida de rosto, candeia baixa  -

Abençoados por seios quase religiosos,
tão densos, tão quentes como alvos,
siderando o nascituro, o imberbe cozido
em tamanha cama de lava e metamorfose
algodoada em sangue. Triturando-se nas bocas -

As tábuas de chão gemido, o contraste
em cores frias dos poros destilados,
a dar moído o Tempo, poente insuperável
um brilho virgem de florescer, doentes
no tórrido calor daquelas garras. Deusas, graças.

A casa descalça, batida, azul e negra,
onde a miséria, ah!, a miséria foi enxovalhada
Sim! Despertos, drogados no mesmo sonho!
Na ponta da língua o licor da lágrima,
o Infinito na dobra dos lábios, o método dos Loucos,
o disparo dos olhos agudos daquele bruxo destino.
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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Epistemologia Diamantina

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Como conheço-Te, Amada?
Feito bicho, ao que parece, aparece
Vejo-Te em cores, vezes distorcidas
Próximas desmedidas, sentímetros
Metros, não!... Escalas de Afeto

Conheço-Te, propriamente, desentendido
Quem explica-Te é corpo, entende?
Se dizes afaste-se, entendo angústia
Se dizes venha, sei volúpia
Se desapareces, Nada

Fazer-Te alegre? É sorver-Te
Alegrar-se, escarnecer a Fome
Incorporar Teu pronome, matar-se
Sabes que é de imatéria que sei comer-Te?
Advinhas que é de matéria que importa?

Substante nada,
Sobreinstante, Sobrante
Decorar Tuas nudezes é fazer-me Roupa
Rompantes, entende?
Quando tudo é Humano, teu Corpo é jeito de fazer Mistério
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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Beau de l'Air, la Cruauté plus pure

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Agora, Plenitude, que fazeis de mim ébria?
Se os vermes ao derredor provam repulsa,
Surpresos da amargura  jazendo expulsa,
No doce, que dos Amantes vos tornais régia

Ó, Gigante, nestes cimos trazeis o Deleite,
Em vosso andaime, altíssimo, eis-me silêncio,
Que do negrume à aurora aditou um decênio,
Fazeis joia e sabor, da Dor o mor e largo Enfeite

Da voz, que embargo!, ó Graça, se pudésseis,
O punho dourado e pródigo que dizima os débeis,
Admirardes, profanada, com olhos de nós mortais

De vossos pulmões, o Ar solene, quereria trégua e mais, 
Saberíeis serdes feito anões, como agora a Vós enganam
Trazendo-vos pelas mãos... ao véu do que mais Amam!
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terça-feira, 5 de outubro de 2010

Sobre a maior ilusão do homem, um homem

Dedicado à Vida: o texto e a música de Glen Hansard


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A incomensurabilidade do Tempo.

O deleite Feminino.

A perfeição entre o Demoníaco e a Serenidade.


Diria destas três fórmulas que são os axiomas que me obcecam, inteiramente. Dos quais me nutro, dos quais renasço, nos quais anoiteço. Eu os persigo, dolorosa e impunemente, como a mais alegre das escravidões. Eu os reclamo furiosamente, na tentativa mais cristalina do pensamento e no furor mais angustiante do estômago. Eu destrono-Me em suas veias, em sua lava, em sua lama. Aprendo a ver no chão os diamantes, de rastejante que sou, e soerguer-me outra vez, num pêndulo jamais sossegado entre o réptil e o apolíneo. Entre estes dois Infernos, há um Céu em que se decide, por indizível fatalidade, que se quer viver, dispondo-se, firme mas cegamente, a secretar Luz no seio das Trevas, a enuviar-se de limpidez sob as cortinas da gravidade. Disso, porém, não enganar-se é o selo de um dificuldade tenaz, negar-se vítima da intimidade, do sentimento, da espontaneidade simplória, da glória mais do que enxuta de viver apenas de si. Deste tríptico descomunal nada me pertence, sou impróprio e impuro,  seus signos me são alheios, seus desígnios eu ignoro, e todos se manifestam, porque são mais espíritos que matéria, na moedura daquilo que de meu ser poderia chamar-se meu ventre. Ali estes monstros decidem gestar suas crias, indiferentes ao meu alheamento, mas convictos de minha aceitação. Jamais os negaria, de mim mesmo faria um abjurado em nome deles, antes eu pudesse saber onde eu me separo e os deixo. São meus unicamente quando minhas são as suas partes mais estranhas, quanto mais próximo é o vão que nos aproxima, quanto mais sei dizer daquilo que obstinadamente eles se calam. E se aos mais novos minha voz soa envelhecida, estas musas que me apaixonam tem um nome para isso, elas precisam inflar como balões incandescentes e expirar um pó luminoso que atravessa os tempos para se dizer que um ser assim é Anacrônico. Tolhido pelo Tempo, pelo Feminino e pelo Demônio, fazer-se em tempo geológico o pólen mais frágil para a mais breve das flores. Não estou preso no fascínio da tempestade e o do terremoto, fenômenos superficiais e passageiros são eles, no entanto, mensageiros. Em seus encalços trazem algo de perfeição, como o primeiro raio de luz rasgando o crepúsculo negro do temporal e os heróis de concreto que sobrevivem porque apesar de estátuas têm a virtude de se moverem enquanto a Terra, nada menos que ela, tenta derrubá-los. São rascunhos, mas são eternos!  Estrangeiros à normalidade das mudanças, ou muito velozes ou demasiado lentos, ao mesmo tempo, paradoxos, de qualquer forma, jamais exilados. Um ser assim se completa, isto os diferencia, no exímio percurso de vir à tona, provando um gosto único em devolver-se ao mundo como um lince embriagado. Não podem desligar os olhos do coração, sabem de cor a lucidez.  Entregam-se, perdulários, ao sacrifício; recusam-se, gananciosos, à Morte. Suportam de má vontade o abstrato, por mais belos que sejam seus artifícios, e de incríveis que tecem suas ironias, são feitos de muitas almas, tantos são os meios de chegar ao mais difícil, um Indivíduo, ou seja, um Mundo diverso que crucifica com a estaca da Liberdade o que une o limite ao universo, o animal ao gênio, o monstro ao  belo, o que cultua o necessário e o mistério e o chama verdade, ou tragédia. Estes seres são ensaios intermináveis do que é impossível pronunciar:





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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Onde os dinossauros brincam.

(Eu gostaria de apodrecer. Pra não ver. Poderia. Mas não aceito. Não sei o que é. Escolhi o mais difícil. Fazer-me moer, até alimentar outra coisa, que em pedaços, mesmo pequeninos, sejam um pouco de força, ofertem força, a outra coisa, vivamente. Tem um velho, amigo meu, que sempre diz, quanto de verdade você suporta? Vai saber. Eu não sei. Mas topo ver. Paga-se caro, porém, é uma moeda limpa. A superfície inventou-se a capa de um tambor. Daí ressoar facilmente. Grave. O salto ignora as pernas. É uma aposta. É perigo. Daí gaguejar, como agora. Daí calar. Um dia eu volto.) 

o cão

içado pelo cordame dos cabelos,
lembro assim, pegando fogo
farpado num arame de cal
cozido de beira em beira, jogado

no suor daquela estrada, onde se morre de frio
sequer o arrimo das horas,
sem tempo, com raiva
o buliço agredia, o descanso negava

aquele destino toava cego
era só ouvir, a manada,
o berço de fogo, os tiros
cansaram-se os atiradores de silêncio
não há morte que perdure,
tantas facas, tantos mísseis -

o ponto do equilibrista - onde se sabe cair
os arrebaldes mansos naquele estupor
tudo pronto, depois jogar-se
a coragem é tardia, no salto não se tem esperança
ainda segue escavando-se dentro de si
até achar o fim, e andar

sábado, 2 de outubro de 2010

tudo sim















de sonhos, te congelei,
tolo não é?
foram tão daninhos aqueles passos
embora de fazê-los outra vez, sempre
não lembra?
contente, contente
como se o ar respirasse,
não, ele desfaz-se, é melhor
não sabemos mais esperar, quando?
quando não for mais a hora
de chegar, só de cansar, cansar, ufa!
cansado
tem um urso subindo, vai se atirar
atirou-se, e dá risada

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

nada não














ali na beirada, onde os pés sacodem
sabe que é perigo duvidar?
ou desligar, que se apaga sem ver
mas abrace, ainda assim
convexo, tudo com mais gosto
mas fale, ainda assim
o caminho correto é só um risco
bem azul, e os brincos são de papel
belo tropeço, enxergar a luz
logo tão logo cegos até se encontrem
despertos, compilados naquele esquadro
logo tão alvos, naquele céu

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

nota mágica sobre um coração alvejado

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prisma.
             recuo.
                        libelo.
aquarela.
                                        ninho.

                                                        mamute.
                                                                          alvéolo.
                                     cisma.
                                                               atropelo.
                                                                                               trilho.
                                                                                             
                                                                                               trilho.
                                                                                             

                                                                                                                  um arremesso teso,

                      os nervos à flor, decapitado, insurgente,
                                             os pelos e glândulas,
                                               o exaspero
                     de algum modo, desconhecido, sempre silente  
                                                  nunca dito, aliás,
    repetido, repetido sobre a mudez da íris, da íris, às vezes
                                     o limbo perfeito, de excesso
                   urdido amiúde de incerteza, espezinhado
                     incontido entre o útero, o pórtico e a tumba
                        descomunal, a série multiplica a cripta
                 até que suspensa, rendida pelo que degrada,
                            varrida pelo revés do náufrago, sutura a própria
                   polpa aberta em  escarlate, faminta
                      e some eterna, suspensa, na manobra 
                                     destas flechas esparsas

                                                                                            um arremesso,

indefeso.
                                             único.
                          percalço.
                                                                                   livre.
                                                     confesso.
        súbito.
                                                                                             alado.
                                            grávido.
                                                                                                    
                                                                    nítido.
                                                                                                           descalço.
.
.
.
                                                    

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

amanhã

.
.
se eu for teu barco em alto-mar

se eu for teu bálsamo e teu embalsamar

se for de quebrar e apagar-se,

se for de arder e de fitar, é

se eu for chama e cristal

e se eu for um arcano completo,

uma palhoça e mil e duzentas velas,

se for um palhaço e um copo d'água, só

e se esse copo transbordar

se eu for um corte e nada estanque

se eu trouxer ranhuras, sei... teus olhos pra curar

se eu correr como sangue, ligeiro em ti

se eu dormir na tua areia movediça, 

e tiver jeito com a lua-nova,

e ficar calado ao lado, luzindo

se eu colar a preguiça na pressa

se às vezes eu enjeitar a sorte,

se eu for um pouco de paz, de pureza

e outro pouco um teorema de morte...

se eu for bobo e te deixar feliz,

se a tevê desligar de repente e a gente morrer de rir...

se tudo fizer sentido, é de vir
.

sábado, 25 de setembro de 2010




aquelas formas nuas, aquelas redomas
sufocam estreitas quase tudo,
aquele escândalo,
aquela dália, lentamente salivada
aquele mal proteiforme,
aquele passado de fósseis, aquela rua
tantas vezes carne e já me alimento de nomes
tantos rastros e sumiços de um amor, nem sempre revolto
nem sempre pronto,  sempre pouco
pouco se sabe quando vem a hora de atirar-se à primeira onda
(evitando as pedras)
e toda certeza quando se encontra as pernas ardendo ao chicotear a espuma

desenhei nos azulejos a tormenta,
com os olhos pretos,
enquanto o vaso esperava mais de mim...
enquanto as sobras dormiam feito delícias
enquanto era simplesmente adeus
enquanto deitavam as roupas
enquanto enganávamos as sombras
enquanto ninguém sabia
enquanto pairavam sobre a laje tenra de sol
enquanto a primavera
enquanto morria
enquanto o fim
enquanto esperavam quietos os dedos e os avisos
enquanto teu riso se abria, se abria
enquanto eu ria
enquanto de nada o pó que eu fazia com  os desenganos
levaram longe o só que de mim saia aos prantos
enquanto entardecia
enquanto zombava na despedida todo o cheiro do nosso futuro,
enquanto gemia o absurdo, enquanto quebravam-se os ossos
enquanto a lua exibia o rosto, enquanto morto
enquanto velho
enquanto  o teto desabava e sobrava única a vida na escada de incêndio
enquanto o médium descrevia o surto
enquanto o ninho tornava sacrifício a vida do outro
enquanto



eu tremia

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

faros

sonífero...
como por detrás da asa mansa
desliza rente sobre a face púrpura
o que é suspenso, o que é denso

o que é de não se deixar jamais,
sobre todas as derivas, contente
balouçando risos e preguiça

a gravidade esquecida, como pétala
e os sentidos sustendo-se de arcas...
que de todas as chuvas, aquele único dilúvio
e da primeira vez tenho os olhos feitos apenas para rir

cuidar dos sonhos de alguém...
vendo as fadas puxarem seus tratores de algodão
por sobre os ombros lisos da flor
e colher silente a noite num cheiro tranquilo

- é de se achar sôfrego e belo não calar -

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

é como ver

me por a pensar com tanto ímpeto
fazes isso com a facilidade da chuva

bem estou aprendendo a passar os dias sem tragédia
- sei... o diabo zombando, crê que estou a brincar...
como se faz quando não pedimos condições para... viver?

e ri-se com tal bravura, assim como que torturados pela leveza

despertei de quando? onde dormia? sei ainda arruinar?
das vezes que não entendemos as trevas, nem o limbo
se dizes que o sol basta... és o bastante perto de mim
meus olhos, tão cretinos de alegria... ainda que tocados pela miséria


a criança subida no muro, vê que ela se joga sem pesar nos braços de alguém
ela voa porque acredita... nem mais nem menos
assim falamos um um pouco das escolhas,
como sem saber por quê...

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

oestes siberianos

.
uma guerra perdida entre o titânio
e o estômago
imagino devir frio e leve e forte,
mas decaio nervoso no vazio da fome
é um desejo escravo, tem nome
um certo embaraço do tempo, afoito
não sei do que deve morrer,
mas vivo, assim... que dizer
temo acostumar, temo o costume de outros,
tenho vício no êxtase
é um desejo escravo, tem nome
eterno retorno de um dilema, ainda enigma
como cultivar as distâncias
e dormir tranquilo com o tempo perdido?

busco nos detalhes as foices que me podam,
mas a poda é somente o bosquejo de um corpo
ainda mais forte
o desejo
o estômago


***


tua imperfeição e relevo é o que mais punge
teus danos, tuas cócegas
nem lâminas, nem dores
a paciência é que descortina a essência rósea dos cabelos
vive de máscaras e a máscara é que menos esconde
a colina branca, e o gelo que não atinge

condensa o fervor na saliva que tange meu gosto
é agosto
divide-se a sorte
o gigante vem morrer à praia
e os anões cheios de coração não entendem:
o destino não tem medida

não é metáfora a jubarte suicida


***


murmúrio interminável... clausura
regresso abominável em ti, absoluto
usura

ora, sacode o pó dos tijolos
não ignora o tilintar dos metais,
mune teus átrios com tigres-de-bengala,
cumpre o pestanejar dos infantes,
vocifera com luz, de passagem:
há sempre uma madrugada, diz o fantasma

mutila o abstrato
coage as ilhas desse mapa, talha o barco
recorta a bússula com estrelas, parte...
mas parte de mim não deixa:
meu focinho úmido em tua vulva quente
o corisco dos olhos
o perfume das gotas, o cascalho
a tormenta e o intervalo

chegamos na arrebentação, diz a carne


***


o cobre arrastou minha peste pra longe
a espingarda era de chumbo miúdo
não deu conta da desgraça, foi só um pavor
durou dois, três dias, o calibre era frouxo

eu ouço:
os dinossauros gemem do outro lado

teus braços esparramados sem ter onde
a sobremesa evanescente no meu espelho réptil
(as cercas farpadas não suportam búfalos)
habitar tua água-marinha, retouçar-se ali
por enquanto

depois o labirinto:
sou de sodomizar centauros,
saquear orquídeas,
estudar o clitóris, essas coisas

sou de rir embora, e de ficar

***

a capa líquida que é teu corpo
eflui perfeita sob os dedos...
a minúcia de uma datilografia chinesa

na concha das mãos, beber a cântaros
o pequeno reduto, o efúgio tátil
o animal primitivo se rebate
na superfície desse leito açucarado

espalhar-se como um filhote de granada,
o gênio alimenta o bicho, eivado na escravidão.
minha calma tem o fôlego estreito
é menina
e logo meu faro chega em tua pressa de atiçar dragões
eu deixo a solidão,
vem raiar teu castanho-claro sobre mim
minhas hastes de metal,
teu nimbo de agúas e eletricidade

são das coisas que se desfazem,
este açodamento e cárcere


***


teus contornos e a voz tranquila
desalmam qualquer sofrimento
é por isso que regresso

um voo macio até voltar à agua,
as festas de quando te reconheço,
a simplicidade de um banho fresco
e o calor ameno do algodão,
a cadência alegre do derretimento
sob a candura das mãos, o zelo

o vapor das ervas como a neblina que adensa a doçura das trocas entre a louça tenra das xícaras e a paixão dos olhos

a perícia no atrevimento dos gestos
que suspedem o início,
como o início de tudo, como se fosse simples
o sossego das coisas envoltas
naquela bruma levemente aquecida


***


os caibros do teto,
as dobradiças acolchoadas na fuligem
tudo declina, as gotas são lentas
a sequência é monótona

os passos são de quem remexe a ordem do tempo,
indo e vindo de outros dias,
velho e menino se encontram

as alpargatas de corda,
o imenso balcão negro e maciço,
o silêncio e as máquinas...
nesse torvelinho, o resíduo:
acho que eram nossos olhos pregados
no reflexo cambaleante das poças,
um passeio mudo pelos vincos da memória

simples como colocar os pés na areia,
envelhecemos

ainda lembro do assovio e das moças,
elas riam de nós

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

a decadança

não é um poema
pode virar a página,
desligar o monitor

é um vento,
um vento, a calma

das coisas felizes
o movimento do ar, tranquilo
a brisa não abafa, nem resfria
arrepia
o invisível, onde começa?

(passou o ano da morte 
e agora dobra o infinito)

o dedo mínimo,
a curva dos olhos
                   , onde começa?
canino, ecoa num piscar, amando-
te, todas as coisas, senão
não estou lá, é escravo o lugar
parapeito para o mar
para-raio, não para não, senão
eu paro de sonhar

terça-feira, 17 de agosto de 2010

000.000,00

está na hora escrita
imediata h. de escrever min.
na evocação
na encarnação
no voo
da canção

na arrebentação
a carne
do refrigerador
do congelador
de sangue
o mangue de tinta negra
a regra, a pedra, a hidra
morta

a rua, a sina,
a folha branca
albina
banal
carnal
heroína, puro sal
ruína

da televisão, da visão
do intelecto
do bisão

sábado, 14 de agosto de 2010

Em Falso

          As calças estavam sujas, lama seca, os pés descalços. A camiseta branca de algodão, também suja, parecia encharcada de suor. A sensação de calor daquele homem piorava sobre um colchão nu, esponja cheia de pó, pegajosa, áspera. O suor vertia o álcool a que cheirava o corpo. Era silêncio e fogo aquela pocilga perdida no deserto aberto de um mato baixo e seco. O sujeito, cujo nome se não sabe, chamava-se apenas de o Paraguaio. Bandido? Mendigo? Santo? Se ignora. Mas a ferida profunda na coxa direita ardia como um ferro quente, suportada apenas pelo efeito tardio da embriaguez. Uma garrafa de cana praticamente vazia sugeria que a bebida lhe permitiu um sono abrupto, uma espécie de graça decidida no afastamento da morte, era dormir ou morrer com a dor. Acordara o Paraguaio, doente como um bicho, lentamente, tentando reconhecer alguma coisa, fracassava, o corpo doído o desconcentrava inteiro. Um casebre de um só quarto, madeira crua e telhas de zinco, a garrafa de cana, uma bacia, um par de botas imundas e um fogão à lenha abandonado e revestido de ferrugem. Era dia, sol a pino, pelas frestas chegava aquela luz incendiária e o som estridente das cigarras, o Paraguaio chegou perto de um dos vãos e perscrutou o entorno, o cenário se compunha do nada, porém, uma estrada de terra batida indicava o caminho para algum lugar. Ele sabia que sair dali era preciso, a ferida infeccionaria em algum tempo, estava confuso e exausto, sedento como um cão, e além de tudo, procurava sem explicação a razão daquela miséria. Um motor de carro fez-se ouvir brevemente, logo silenciado, supostamente o vento o levava intermitente em outra direção, logo retornava, o Paraguaio prestes a sair foi ao vão da porta conferir, o automóvel vinha na direção da casa devagar, não era compreensível, talvez a condição da estrada, talvez a calma do motorista, talvez a busca quieta de alguma coisa naquelas paragens. O Paraguaio estava acuado, duvidando entre a necessidade do socorro e o perigo iminente – no entanto desconhecido -, um sentimento vago de ameaça e medo; o carro se aproximou até estacionar em frente a casa, longe, cem metros talvez, mas próximo o suficiente para suceder o encontro daquele homem desafortunado que amanhecera ferido e do qual se sabia nada, além de um falso nome. Desceram dois homens do auto, da casa só se podia avistar figuras mudas e deduzir de lá o que se passava distante, os caras pareciam conversar, discutir o próximo passo, mas o que se notava era a inatividade principal da situação, da mesma maneira misteriosa que andaram obstinadamente até ali e aquietaram-se diante da casa, o Paraguaio nada fazia, olhava como que aturdido os passantes e de sua toca não sabia se previa predadores ou parceiros. Já se passava quase meia-hora, a sede do Paraguaio o estava secando, já percebia algo podre em sua perna, mas parecia ter uma força de pedreiro o desvalido; notou que o calor impiedoso começara a incomodar os homens lá fora, tornaram-se mais impacientes, movimentavam-se mais ligeiramente, embora quisessem sugerir que o incômodo não os acometia. Insinuaram um avanço repentino, um dos homens se debruçou sobre a janela do carro e ressurgiu do interior com duas pistolas, entregando rapidamente uma delas ao companheiro, seguiram em direção a casa. Na metade do caminho um deles assustou-se num grito apavorado e raivoso, merda!, merda!, espera!, disse ao outro, agora surpreso, pararam os dois. O primeiro deles, seguindo caminho diverso – em trilha no mato nunca se repetem as mesmas pisadas do que vai à frente – acabava de ser fisgado por uma urutu camuflada naquele mato seco, serpente típica daquele terreno e na hora mais propícia de abastecer sua natureza com o calor terrível do sol. Naquele entretempo, o Paraguaio de imediato acorreu-se no resto da garrafa de cana, segurava-a como um terço, bebia goles minúsculos como se fossem rezas profundas, tremia. Quando tornou novamente a ver os visitantes, alguma coisa já havia mudado, a destinação dos caras estava confusa, a mistura do calor aberrante e do veneno injetado num deles transformara o plano, já se sabia menos ainda o que poderia acontecer. O que ainda restava imune sacou a pistola e disparou três vezes contra a serpente, em seguida tentava acudir o ferido, enquanto volta e meia endereçava os olhos na direção da casa como que pressentindo a presença de alguém sem a convicção do pressentimento, logo saiu de seu estado aparentemente decidido e seguro para um misto de inquietude e vacilo. O comparsa começava a sentir os efeitos, a garganta estreitava e os batimentos começaram a acelerar, e o local da injeção, aqueles dois pequenos núcleos de morte, já davam sinais de apodrecimento no tecido. Estirado no chão, pedia ajuda, por favor, me tira daqui!, já demente; de pé, o outro fora possuído de algum disparate, paralisado como um mármore.
          Mas não havia como agir friamente debaixo daquele sol, eles estava enlouquecendo. Desatinado, o homem saiu de seu estado de torpor, sacou mais um vez a pistola e disparou outros três tiros no parceiro, certamente não fora piedoso, estava fora de si, num inferno. Nesse momento, o Paraguaio não acreditava no que via, seu destino seria uma bala na cabeça, um animal desesperado e impotente, um ser no abatedouro. O homem começou a carregar o morto de volta ao carro, Paraguaio era um espectador fantasma e continuava a testemunhar o inacreditável, chegando ao carro, o homem abriu o porta-malas e antes que depositasse o cadáver ali, já exausto, retirava um outro corpo de lá, parecia o de uma mulher, pernas e mãos amarradas, um pedaço de pano cerrando a boca, desacordada, pois não se trataria um morto com aquele cuidado, ao menos não aquele homem. Deitou-a na sombra rala que fazia a carroceria, jogou o morto para dentro e baixou à força o alçapão de lata. Nada parecia acontecer como aquele desgraçado imaginara, haviam suportado tanto tempo debaixo daquele sol, certamente não invadiram a casa de pronto para que se certificassem que se tratava de um lugar ermo, tamanho esforço para ter, em má hora, um cadáver no porta-malas. Nem suspeitava da presença do Paraguaio que aproveitara a maior distância do homem para procurar algum pedaço de ferro ou coisa assim no interior do fogão. Encontrou coisa alguma, apenas uma brecha, uma esperança, se é que assim se pode dizer. Atrás do fogão havia uma tábua larga, talvez tivesse servido de mesa outrora, estava ali a esconder um enorme vão na parede, o Paraguaio arredou com sacrifício o fogão, afastou a madeira, a ferida na sua coa o carcomia,  o vislumbre da saída o aliviava. Moveu-se afoito, novamente, até a porta da frente, percebeu que o homem trazia a duras penas o corpo feminino em seus braços e uma corrente, era um arraste pesado. O Paraguaio voltou ao vão, lembrou-se da garrafa deixada ao pé da porta, retornou à porta, mais um vez à fuga, não sabia como manter intacta a tábua da mesa, deixou-a de lado, já estando do lado de fora puxou o fogão e o prensou contra a parede, ficara apenas a parte debaixo do vão destapada. Paraguaio estava fora da casa, mas longe, muito longe de estar livre. Em seguida, a porta estourada, os dois visitantes adentravam aquele curral em febre, Paraguaio podia sentir o cheiro da fêmea, era um suor perfumado e forte, ainda que a paisagem fosse enfermiça, ele não evitou de excitar-se. Mas logo sobreveio a presença do homem, ofegante e desembestado, como se não soubesse agir. Acorrentou a mulher aos pés do fogão, e se recostou ao lado. Fez-se um silêncio plutoniano. Três almas banidas. Naquele instante preciso, os três estavam de olhos fechados. Descansaram. Em falso.
          Não tardou o homem a se mexer, fitou a mulher, conferiu o cadeado ainda de joelhos e levantou-se. O Paraguaio ouviu o ranger do que sobrara da porta, temeu ser descoberto por uma inspeção do sujeito, acalmou-se, os passos do homem se afastavam dali, certamente se dirigia ao carro, e deu-se o previsto. Logo se ouviu o motor e a partida. O estômago do Paraguaio estava roído, a boca era um agreste. Estava em nervos. Decerto aquele homem livrar-se-ia do cadáver e dentro em breve voltaria a dar conta de sua prisioneira. O Paraguaio sabia que era hora de andar, antes de partir, decidiu espiar a mulher pelo vão destapado, arrepender-se-ia profundamente. Era uma jovem de cabelos castanhos e olhos de cor verde, feições delicadas e expressão adolescente, respirava extenuada até enxergá-lo. O paraguaio era dotado de mandíbulas brutas, sobrancelhas largas e olhos escuros, mas havia naquele rosto alguma doçura matuta, apesar da rudeza. Fora inevitável o desvario. A jovem convulsionava com olhos de socorro, o suor acrescido de lágrima era como sangue escorrendo no rosto, feria o próprio corpo contra o chão extraindo uma força  desconhecida. O Paraguaio viu-se como um porco-espinho encurralado, aquele horror e a perspectiva nula de tirá-la da alcova o deixavam sem escolhas, deu as costas e partiu. Todavia, evitou a direção da estrada com receio de que o bandido retornasse de repente, escolheu uma gama de eucaliptos que apareciam não muito distante, faziam um triângulo perfeito com a casa e o acesso à estrada defronte, sendo que esta encontrava em curva longa mas acentuada o conjunto de eucaliptos. O agora desertor sentia a presença de um cadáver novamente, sua perna cuspia pus e a desidratação era fatal, conseguiu alcançar a floresta, era fim de tarde, o seu crepúsculo parecia o mesmo do dia, não era sensível a ponto de chorar, mas seu corpo, involuntariamente, lubrificava os olhos com o resto de líquido que lhe sobrava, não queria morrer. Por alguma força estranha, como que reencarnado, decidiu que faria de si um santo naquela noite, o milagre de chegar a estrada arrastando-se, pois caminhar já não era possível, e assim o fez, ora com uma das mãos, ora com a outra, revezando entre a garrafa de cana e o capim que o servia de corda, alcançou a estrada como se chegasse ao céu, deitou-se de costa, a noite era clara e plena. Entre seus olhos e a maravilha daquele teto estrelado, transparecia feito uma película luzente os olhos da jovem, absortos nos seus, cheios de esperança. O Paraguaio ouviu o som das sirenes, o canto dos grilos, deitou o último gole de cana e exalou o cheiro do álcool pela última vez. Logo passaram os carros por ali. O Paraguaio restou.

domingo, 8 de agosto de 2010

não é difícil

eu falo do tempo


- dá pra abarcar todos os beijos na boca?

as coisas que secretam arrebentam!
pensei que as voltas fossem menores,
e o logo bem maior que a espera
quando crédulo vejo que passa
se vê o liso das coisas, estão todas abertas

encontrei no chão, achei bonito
era isso que diz eu
entre as latas daqueles que riram,
entre a garganta dos que desistiram,
entre ossos
o verniz da passagem, o cheiro

derramei mais, derramado
a pata deste mamute me pesa
olhar para o lado
enquanto estava dito que tudo entregue era pouco
esmurrar as próprias coxas em soluço não adianta
era pouco

- sabe, não existem cinzas que me apaguem!
.
.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

que reluz

(em razão de um pequeno carinho, a uma amiga bem pequenininha)

pepita mínima dourada,
que desconheço,
de algo fosforescente,
às vezes, parece
esconder raramente
o que ama com desespero


dá voltas e voos
e volta ao mesmo tempo,
que reconheço,
de algo mistério ainda puro
um riso claro remédio
uma graça, um apetite libélula
.
.

Kairós, o crônico

pode parecer ópio cantar felicidade em tempos ruins, talvez seja o frio, talvez sejamos nós, nós todos, amigos, talvez a secura do ar enxugue a tristeza inteira, quem sabe as linhas, as lãs de aquecer, os novelos da infância têm fim, eu extenuo no problema bobo de olhar o céu e perguntar, alguém estelar consente às noites responder que sim, os açudes verdes estão quietos, a palavra dá voltas no silêncio, penso: aquele canto esquecido cultivou a pirâmide de pó que o esconde, os segundos são egípcios, o tempo pode engarrafar o álcool, mas não pode engarrafar os bêbados d'alguma coragem, de minar as correias do medo e da melancolia; avisa que é de se entregar, diz o primeiro, ya no puedo reaccionar, diz o segundo... um terceiro, ardentemente cru, diz que é pra viver, em seguida, diz que é pra morrer, não-contraditoriamente para a overdose da identidade; é bonito ver tudo nisso ainda bonito, e não se encerrar, e reagir, e dormir outra vez que o corpo deixa de ser luta e sonha de novo e sempre a tez do mar tranquilo que o fez vida, futuro desperdício início da cria de um mundo solar, é dar as costas ao vento que faz andar, é um estupor aqui, gelo ruído debaixo das peles serpentes, zelo das gentes que fazem o vermelho de marte sossego, entardecer não é fácil, tudo isso é óbvio, nada ainda é uma volta por cima, a severidade das horas, o momento exato, a contradição, de estar em cacos, nem de todo estilhaçado, não ligar-se nem desligar-se, paralisado


vai dizer ao coração do louco que um é do outro apenas metáfora...

sexta-feira, 30 de julho de 2010

houve e sempre haverá cavaleiros andantes

aproximado de mim distante


instante aquele de cair


calmo agora de ter sabido

alegre ver partir, 

feito alegre o coração partido



[tenho estado de mentiras pra mim, dessas que crianças usam pra sobressair ao escuro, dessas que os homens buscam pra desesperar, dessas que se não acredita, dessas que dinamitam as saídas, dessas que superadas tem tantas outras por vir, dessas que tocam belezas adiante, dessas que faz a gente desdormir, dessas que faz sorrir, dessas que maltratam seus inimigos, dessas que bendizem a vida, dessas que valem a pena, dessas que nos dão abraços em troca de outros abraços, dessas que choram motivos sem motivos, assim, pra mentir-se emocionadas de coisa qualquer, dessas que se lustram delicadamente com o sabor das coisas - que amor tem gosto, gosto mesmo, por exemplo -, dessas que das perdas vão se ganhando na calda doce de tempos felizes, dessas que são simples, dessas que põem as mão sabidas no cabelo sobre a orelha e se mentem tão verdadeiramente que até sabendo-se da verdade mentida se cai verdadeiramente nos braços do engano, dessas que se apagam no tempo, dessas que se esquece porque vive-se de inesperados e que entristece porque são esperados os inesperados que não vêm, dessas que descansam domingos debaixo do sol, dessas que se escrevem repetidamente para encontrar coisa nenhuma, dessas que se gostam assim, dessas que não esperam morrer, dessas que acabei de encontrar e sei dizer que entendi o que querem mentir, sê feliz meu filho, sê feliz de mim] 

quarta-feira, 28 de julho de 2010

mijei por sobre os mortos

mijei por sobre os mortos - um sorriso úrico
debaixo do último cimo, por cima do enésimo gole
como a cola d'água de uma chafariz assassino
fui sumindo como o balé da fumaça
na fornalha espelho dos dias adiantes, restantes, rastejantes

meu périplo é das tripas arrastadas no chão, cascavelhices
morredouro nos tecidos de sol dobrados em gavetas negras,
um soro vertigem de caminhar a nado num lago tóxico

o próximo navio é minha figueira plena pátria serrada aos prantos,
naufragada ao solo ignoto das origens, das imagens primeiras,
ao início matriz do poema... vacilo -
redemoinho púrpuro, ralo dos delírios

a mesma solidez dos garfos que seguram meus passos
a fim de a faca torneada com horas a fio degradar
a tenra carne de meu cérebro tremeluzido de animais
as feras telúricas que empossam o músculo trágico da vida

descalço segue o rodo da tristeza, da resina, da tortura
travando a ambiciosa rendição nas ervas daninhas
das minhas calçadas, no revés do meu garimpo silêncio
no distrair ruminante das saídas que inventei no corpo tangente de meus círculos
moro nas rotações de um sistema lunar, onde a luz cintila num sal metal noturno
a vida úmida trepa em hastes de abandono, todos os signos são agudos
tesouro, louco, vértice - do íngrime ao surto, do infesto ao ouro
do protesto ao sexo, do rumor ao grito, do primor ao precipício

o bruto amálgama de vozes faz ruir o rosto pálido
do teto estrondo dos ratos que sela a separação do céu,
então sou barco dos gritos de ancestrais d'outro universo,
a lança cometa dos sonhos abertos em painéis de revolução...
meu giro, meu bote, meu leite materno revida a ninharia do credo
não morro, não durmo, não páro... óleo na máquina dos vivos -

a lápide coração dos infelizes tem a pele fria,
mas a língua dos cães é um inferno matilha... e tenho as raízes bêbadas desse calor canino

segunda-feira, 26 de julho de 2010

tradução do branco dos esquimós

tenho as casas de mim agora demolidas por não sei que ventos de embora.
demora dos atrasos que colchetes de solidão deixam revirados nesse redil.
senil de trapos outrora coloridos com doces feituras de parco coração.
não que se sabe mais concreto de sem desculpas pensar-se em tantas reticências.
paciência que tardes trazem luz que falta em meus porões retinas.
usina de almas que engrenam todos os enquantos que de mim se escondem sábios.
adágio segredo que toda morte morre de hora certa e apelo certeiro.
canteiro terra de desmentiras sementes maceradas pelo perigo da superfície.
artífice rupestre de amenizar monções tristes e poeira vôo de ínfimos cristais.
areais da morada que distam de mim a casa que não tenho estado desde amanhã.
anfitriã da saga criança que as letras prostíbulos emprenham de estio.
extravio dos cursos d'água que ressudam belezas por sobre a pele sede de mor-viver.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

farpas de algodão

o tédio encara o mais forte amor
com tal mansidão e desdém que culmina -
arrasa suas tendas de pedra
como se fossem papéis encharcados

as mãos quentes pareciam felizes,
risos não soluçavam vazios
e o tênue pântano que agora berço descansa
não desenhava em tuas rugas
a cova larga de minhas lembranças

que minutos nos abandonam ao fim,
qual o verbo daninho que
crispa o ar deleite das noites
que diz o risco que corre o desenho das gotas

detrás de muros cerrados que me gracejam
posso ouvir rumores de festas infâncias
ou frestas em campos de guerra... não sei
são trompetes e gaitas que ouriçam dores

terça-feira, 20 de julho de 2010

rosamente híbrido

um aterro de fome,
o piscar de olhos do estômago:

um revide, um sonho -
as mesas
revivendo a madeira morta
do dia a dia de quem se consome -
qual o fogo e a lenha seca da vida

também são memórias
as mãos desconhecidas
que apagam sem pesar
as dores que eu nem sinto

é clara a canção das lâminas
de um amor touro desgovernado,
distraído?

tenho medo de me tornar inóspito,
e por descuido sigo cultivando luzes...
aplacado entre silêncio e vozes,
meu rumo estira-se sobre nuvens
e meus cortejos fúnubres terminam
por se encontrar em doces serenatas

é o brio que o amor inverna -

quinta-feira, 15 de julho de 2010

o amargo castanho-escuro dos teus pêlos

é dor que faz aos olhos
a fria península que nos separa -

como tardes que precipitam...
os dedos pequenos do orvalho
e o tombo congelado das noites

como a louça esparramada de raiva,
a porta entreaberta de adeus,
o ranço das vestes manchadas
do ocre dos teus segredos,
eu me abandono inteira...

jamais poderia amar-te:
se desvendasse a calma dos teus golpes
a tempo de não sobrevir os carinhos
se não fosse minha tolice miúda
de gozar ao revés das foices com as quais me maltratas
se não fosse meu coração desnudo - 
que a vida fizera ferrugem -
untado, assim, tão perfeitamente
com teu óleo barato de amores

se fácil fosse a fuga...
dos cegos arrepios,
dos teus olhos rasos,
e dos teus abraços
que tão torpemente me amarram
ao lodo cediço das tuas delícias

se a coragem me é estranha,
a covardia é de ti bem sabida,
pois não sei da valentia
que é limpar a sujeira tua
nas lágrimas minhas, arrependidas 

as lágrimas...
estas que não me tornam pedra -
meus tropeços e máculas -
sinas que insinuam flores
a vã promessa... de esquecer teu cheiro

segunda-feira, 12 de julho de 2010

de ócio e calafrios

namorar ignorâncias
no ventre espaço dos destinos
no regaço das esquinas, das surpresas
dos declínios

resistir nalgum perfume 
do cheiro abutre da certeza 

no fulgor dos desavisos
talhar vento menino
em barco que navega o teu cio

da sublime reentrância das coisas,
nada senão entrever, senão amar

ainda que alquebrada e banida,
ainda que ladra,
ainda carne, pele, resto
coser os lábios das próprias feridas -
esta loba
alimentar de sonho as suas crias


chamar-se vida...

sexta-feira, 9 de julho de 2010

o deslize é um acerto incerto

as mãos têm a destreza de um incêndio
quando o corpo fumaça recende
e as pálpebras simulam janelas cerradas

a pele é um frasco de fogo ao avesso,
e a vida tem o mesmo cheiro e arde
quando as narinas são baldes de aconchego

o peso e a fresta são amigos do vento,
e os vãos e as fossas me adentram afora
que os pés são rastilhos do tempo

e se a noite dos amantes é tormenta,
as horas - estas não sei como dizer -
são as vísceras dos meus olhos riachos!

quinta-feira, 8 de julho de 2010

calhamaço

enquanto o sempre,
sem menos,
se desfaz

sobre alma alguma

de quem não sei,
logo e dúvida se desprende

vem alguém

depois e para
e mais agora, e mais

tudo esquece

só e nada e pó
embrutece - a

pedra ausente

de não vir pluma,
sem-pre-sente dura

segunda-feira, 5 de julho de 2010

sobre grifos e agulhas

deveria o amor se distrair, assim, recente?
e se na noite, dos dentes, saísse-se-me pequenos carinhos,
porque não posso arrancar-te de ti inteiramente?
e pensar que é besteira querer-te ainda tão jovem de mim,
tragado pelo descompasso de quem mais pode ensinar-nos -
o tempo

vejamos a lógica dos soluços entre dois de nossos silêncios:
enquanto me embaraço no gesto de sonhar ao teu lado,
tu sossegas no perfil de tuas cicatrizes
dois futuros em mim sedentos
pelo titubear de dois passados em ti suspensos

não tenho jeito para endereçar os gozos em mim:
de repente vejo-me pedra em pleno ar... queda
tão logo vejo-te ventar nas minhas dunas,
e mesmo com pudor, arrepia-me te ver arrastar meus horizontes
e a sorte nem sempre segue teu encalço,
tendo vezes em que adentro teu mar inteiro,
tuas ondas e tuas ressacas
e sigo plataforma e aço!

mentira seja dita: a verdade é a mais tacanha desesperança
e se eu costuro algum fim às avessas com fina fazenda
é para adormecer teus ouvidos com um suspiro de espera
e cegar teus olhos com um pequeno beijo de seda

(é só uma canção decadentíssima)

Ao meu querido amigo de O tango dos guarda-chuvas


somos desertos, somos insetos
nós somos verdes e aranhas e dejetos
a artimanha do camelão

somos a barba de um poeta idiota
o nosso abraço é nosso espaço mais aberto, mais sereno

o nosso fôlego é quase mínimo
é um cão ladino, um vespertino adolescente, um amor doente
uma ternura, em nosso rosto fere a pura ofensa tola
dos camaradas, dos doidivanas, dos infelizes e dos normais

sábado, 26 de junho de 2010

nove graus


à meia noite, sob nove graus
em hora que nos sentimos vivos
qualquer grito seria um falso desatino
saindo de nossas bocas em lençóis de vapor
um sangue rebelde e quente
rebatendo o gelo solene ao redor

como um desespero que não se engana de ser atropelo

à força de nossos olhos abertos
o vento declina em gota
e repentinamente, um sonho se nos atravessa discreto
qual dos goles fez-me escravo de ti inteiro
quem das perdas aprendera a deixar-se rir

há nas horas de amor um ar nem triste nem feliz
porque o tempo se atem sobre si
de tal maneira que sente apenas a fome
de agora, não ter mais de si a perder

nossos olhos poderiam mentir: se quisessem
como arrepios, poderíamos ser breves
depois de eu beijar tuas têmporas com tanta pólvora
poderíamos ter a calma de explodir
e seríamos leves, então, se não fôssemos corpos
se fôssemos âncora contra a corrente das nossas mãos

e se o frio nos corta à meia noite,
em hora que nos sentimos vivos
talvez sejamos inevitáveis avisos
de que o inverno afia a lâmina de nosso próximo verão

segunda-feira, 31 de maio de 2010

pro-lixo, nem pensar

.
chega, do amor não trato mais
agora sou de prego e parafusos -
telhas que não chamam mais goteiras
não tiro mais o sono alheio, é feio, me disseram
a chuva mente que o teto quer chorar
deixa, de sofrer mais ninguém quer saber
agora importa o plátano caído e pisado
o latido acuado do cão perdido
o samba ressentido do velho coitado
será que começar por um lírio bêbado dará um bom poema?
de todos nós o pó interessa ao futuro, que absurdo
o conto resumido do eterno tilintar no frio, não, é febril, não é?
ah, quase me perdi por nessas linhas erradas
a canção já vinha tinta se assanhando sobre o pobre papel
logo eu rio, logo logo depois o mar virá sertão
e da carne vai restar arame e arado e solidão
do teu olho que não brilha, brinca de bilhar, é, comigo
agora só resta aresta, logo vai embora, eu sei, querendo ficar
é sábio (se) enganar, olhar de lado, deixar a roda rodar
nem é tão triste assim deixar pra lá...
nem é tão frio aqui no sul, nem é tão azul o céu
é mais bobagem perder a piada que o amor
é mais amor rir, vai ser rio pra ver o mar, vai lá amar
agora sou de prego e parafusos, peraí
deixa eu apertar o coração, não, deixa pra lá
perdi a chave, fiquei na fenda, fecha os olhos, vou passar
.

sábado, 29 de maio de 2010

atende por todos os nomes

.
não me farto do amor, nem me furto desse roubo em nós
essa coisa, esse ouro,  esse papel o mais vagabundo
colado na sola dos nossos sapatos
perseguindo até o fim da estrada, como se fosse reles
nosso dia, nossa an-dança, nossa pequena folha rastejante

estamos indo pra onde, parece inquirir o vento
e venta calma, a derradeira brisa no meu rosto exausto
que ao te ver turva o próprio leito e derrama
sobre as mãos nervosas, não, sobre o corpo em surto
o desejo de ser de todas as coisas e teu

cultivamos sem saber do desespero que espera
esse amor do ventre às pontas dos dedos
na fortaleza de uma bola de sabão
não é belo cortejar o sopro que nos estoura?


volta a brisa amena pra secar nossa lágrima escura
e coragem pra nos despedirmos com carinho
faz-se as pazes com a felicidade e o adeus
e a vida inteira se condensa no segredo de estender as mãos

quinta-feira, 20 de maio de 2010

mirei no chafariz, acertei o carrossel: quase paralaxe, não fosse o coração

.
se do teu olho, o brilho
fosse uma cama elástica 
eu saltaria de costas
sabendo dos sabres, do mais alto dos edifícios

se do teu rosto, o vermelho
fosse um nariz de palhaço
eu morreria de cócegas
fazendo rir os ossos do meu mais pesado ofício

se teus saltos fossem longe demais
voando sobre pernas-de-pau
eu apertaria até doer meu passo
pra não te perder jamais de vista

se tuas sinas fossem as de um clown
zombando dos velhos e tristes rivais
eu brincaria, na terra, de artista
e no espaço, de poeira e luz e rastro...

terça-feira, 18 de maio de 2010

dois e dois são três

.
as coisas em mim, na sua maioria são graves
têm gravidade, são sérias e pesadas
do gênero trágico
muitas vezes épico, heróico
não é nenhuma glória, a bem pensar
ter a textura, o sentido de uma odisséia

você, de outro lado, é um beija-flor, ou borboleta
com certeza, teu nome é haicai da leveza
eu: um caracol

trago o passado inteiro comigo,
sempre presente, tudo ressentido em mil voltas que me pertencem
como a minha própria morada


você gosta dos gostos cítricos, do laranja e do amarelo
minha cor é verde, sou úmido, sombrio, amazônico
você gosta de klee, da limpeza em cores sólidas
eu sou caravaggio, goya
luz tecendo escuridão, negro

dois quaisquer
mas eu prefiro você
truffaut, godot, voz e violão,
rayuela e livro sobre nada
prefiro seu jogo da amarelinha

domingo, 16 de maio de 2010

a f(r)esta

.
conhecidos um do outro há tanto tempo, eu de mim mesmo, as vezes nem sei o que dizer-me em dias nos quais não se abre a janela, não se percebe a luz do sol nem se nos desenha a linha de um horizonte. dias em que nos encontramos encerrados, e nos havemos com a nossa própria penumbra. tento, como se não soubesse das regras desta sestrosa brincadeira, a de encontrar algum novo sentido para isso tudo que se chama pequena solidão dos homens. percorro algumas linhas de Cortázar, procuro a calma na melodia de Ramil, tento não correr ou fugir ou esquivar-me do insolúvel presente, do indigesto presente que se embrulha em meu estômago, da incontornável força que nos acompanha taciturna e diariamente e que, amiúde, não nos apercebemos, a gravidade, de cada ideia que insiste em tornar-se real e se agrava em nossa memória, o pesar do corpo e o enrugar das mãos frias e rígidas. que nem todos caiam nessa armadilha délfica é um problema que não me diz respeito, por mais interessante que me pareçam aqueles seres em que predominam os fatos ao invés das ideias, e para os quais os sapos eruditos acreditam que se tratem de seres vazios, e obviamente se enganam em seu equivocado coaxar, pois estes seres factuais a que me refiro são tambores cujos sons estão repletos de realidade. insisto, porém, nos musgos e viscosidades de minha recalcitrante existência crocodiliana, entre a resistência silenciosa e paciente das águas e a solidez arenosa de um leito embarrado de pensamentos. o couro que separa o mais frágil de mim e o resto do mundo é grosso, a gravidade em mim é demasiada, arrastando-me sob uma tonelada de instintos e lampejos filosóficos tão anacrônicos quanto a minha espécie. mas nada em mim seca e careço cuidadosamente, diria mesmo carinhosamente, em manter meus olhos bastante úmidos. em toda clausura é essencial flagrar as aberturas, deflagrar a invisível escamação que nos socorre e com a qual desnudamo-nos divinamente com a possibilidade de uma animalesca renascença, pois, dessa íngreme desolação que agora me ocorre, acabo de furtar-me inteiramente sóbrio, apesar da dor e do enjoo, no exato momento em que, com as mãos estarrecidas, achava-me prestes a desesperar-me, a clamar a deus que desistisse desta tortura, e nesse instante, fez-se um sentido, em nenhum outro lugar senão na palma estendida das minhas mãos, estava ali, naquelas linhas imperfeitas nas quais nada lamentava, nada hesitava, e nas quais algo se desenhava como o horizonte que até então se escondia, eram simplesmente as ferramentas da minha alma que ali luziam, o artesanato da minha própria solidão que ali se deslindava, eu encontrara, finalmente, o instante... o murmúrio ancestral de todos os sacrifícios, meu sangue quente banhando as mãos de meus próprios guerreiros, minha carne agora farta sobre a mesa, e o delírio de uma soberba refeição, a do instante devorando fantasmas.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

sem título

.
um velho neste novo mundo. um passageiro experimentando a passagem. muito velho, sabe muito pouco de agir, perde muito tempo em reflexões. muito velho, não enseja nos músculos e nervos a vontade de sair; tampouco despenderia alguma energia para convidar qualquer um a se retirar dali. era sua morada já há muito tempo, a madeira podre da varanda frontal apodrecia amigavelmente já há muito tempo com ele, um dos dois haveria de enciumar-se bruscamente só de imaginar alguma renovação repentina em alguma das partes conjugalmente envolvidas. paus podres suportando telhas velhas, pernas velhas suportando miolos podres, cada um a seu tempo, no seu ritmo, na sua condição apodrecedoramente suportável. o gato raramente andava, apenas a sua cola, já que sempre foi um outro bicho colado ao gato não se sabe por quê; lembra muito os traços da cola dos macacos, porém, muito mais estúpida que esta, a cola no gato não tem razão alguma. já o cão é gente muito diferente, tem todas as razões, é um ser humano perfeito, é capaz de babar e rodear em busca do próprio rabo com toda a autenticidade do mundo, tudo no cão é alienado, nem um vestígio de consciência para assegurar sua vulgaridade, cada coisa acertadamente ao seu tempo mesmo que os tempos na ordem das coisas se invertam. ele pode dar de focinho no pote de água - maravilhoso transtorno - quando o mais preciso era abocanhar a sua bola de estimação, e nada altera a perfeição do seu instante, como nem duas mil explicações humanas poderiam explicar, é como se o cão ao cair de cara na água dissesse a si mesmo era exatamente isso que eu gostaria de fazer. o velho não desfruta do mesmo contentamento, não quer sair, não quer que ninguém o deixe, se deixar está bem, se não deixar, pois bem, assim está. a bola acaba de tocar o gato, lá vem o cão, o cão bate no gato - era exatamente o que o cão gostaria de fazer - o gato não se mexe, a cola sim, a bola também, cai na boca do cão, que segue ritmo canino da sua perfeição. no velho desperta a vontade de um trago de mate, ah, a surpresa, o velho ainda tem vontade, ele imagina o mate, saliva sob a imagem, tem ímpetos quase reais de levantar-se, e quase involuntariamente sente os próprios pés pressionarem o chão, por deus!, assim ele conseguirá! lá vem a bola, logo, vem também o cão, a bola pára na cadeira, o cão certamente não pára, logo, o cão acerta a cadeira - porque ele não quisera outra coisa -, e o velho explode num berro coberto de vontade, mas que cão!, maldito, não se pode mais sossegar, estou cansado, não quero mais nada. silêncio. o grito quase distraiu o próprio cão de sua perfeição, quase nada, logo retornou a ela, disse au-au, apoiou as duas patas bem à frente, a cabeça balançando, a língua pra fora, a bunda empinada, e zapt, em disparada atrás da bola, lá vai ela, ah não, no galinheiro não! a cola do gato só a espiar, o velho a cochilar, o mate a esperar, praticamente nada a acontecer, maldição, que frenesi! há de passar, sem preocupações. e finalmente, algo inexplicável, o pinheiro deixa cair uma de suas pinhas em cima das telhas podres da varanda, um caco se desprende, acerta matematicamente a cola que, desesperadamente, acorda o gato que está colado nela, o velho se assusta e sem pensar, maldito velho!, sem pensar, acaba por ficar em pé, mas a madeira da varanda está podre, o velho abre um buraco com a pressão dos pés e cai, tenta segurar-se no corrimão, mas a madeira da varanda está podre, ora, qual parte não se entende! maldição! o corrimão se parte com o peso do velho podre, e o poste que segurava o teto da varanda podre por seguinte também se parte, e todo o teto podre cai por conta de uma pinha bem em cima do pobre velho! a casa toda cai! o pinheiro, entusiasmado, quase se joga ao chão! o velho morre, a cola morre, o gato colado nela também morre! até que... enfim... sossego! ah, não! lá vem a bola!