domingo, 12 de julho de 2009

Viagem

A leve crueldade de olhar para trás...
Ruidosa, como a saga rasteira da loucura
A queda do sopro aquecido da aurora leva
A esperança de que as fadas venham tocar na cólera,
Enquanto a noite não vem roubar o surto,
Sonho - devaneio e luto - como o bater de asas e desespero,
Castelo de ases desabando, e o ceú
Brilho - de todas as casas vazias - feito cegueira,
Olhares coesos em anéis de tristeza
De onde a força destes móveis e poeira?
Lá, onde o sangue não seca,
Vivo, como as ondas do Atlântico,
Impiedoso como o inferno astral de Deus
O freio da morte imperra o ruído da alegria que cresce
E nasce, como o zelo que inverte os ponteiros do tempo,
Um sabre que degola a maldade do ventre, e derradeiro,
Sobe a montanha dos dias
Esta lâmina - cópula, crime e fastio - prepara o sacríficio da alma
A calma veleidade do homem -
O fim curioso, sereno e tardio, um querer
Do alvo certeiro que some sem ter
Escrito um poema de adeus - será.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Amor perdido

Hoje - palavra vazia,
Das pedras contadas no caminho
De ninguém...
Soluço, do mofo, espinhos

Detrás da porta, espera por mim,
Amargura morta, despedida: -
Dos gritos que terminam
Escravos da tua ida

E o raio de luz que traz a escuridão?
No canto largado do teu brilho
Dorme o robô da canção,
Amarrado, segue menino nos trilhos...

E quebra, dor que de vez consome
Sonha outro nome!
Deixaste no limo, sera-fim
Um corpo que nunca tem fome de mim.

sábado, 4 de julho de 2009

Um jornal ana-cômico: primeira página.

Há uma década, certos jovens, descobrindo a breguice de um coração partido, silenciavam suas dores nas canções de amor de Renato Russo e Roberto Carlos. Hoje, ao sabor dos ventos de uma nova e imprevisível geração, a juventude se consome em emo-ções. As autoridades poéticas estão preocupadas, diz o superintendente Liriciano dos Reis, "não sabemos em que esse constrangimento pode acabar, estamos preocupados, talvez estejamos diante de um grande infarto de nossas instituições amadoras". Em tempo, alguns manifestantes já esboçam seu descontentamento. Na tarde de ontem, em frente ao Rosário de Lágrimas, uma moçada anacrônica desfilava ao som de pujantes palavras de ordem, "a franja não é o problema, mas onde estão os poemas?".

Ao desmame colossal da vida

Estou no vício. -
A distância roída do vão
Entre amor e solidão...
Meu rebuliço, meu berço.