quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016
É só
A felicidade é só uma camada de gelo fino
por baixo, apneia e frio
em cima, algazarra
ao redor, a mãe na sala e o filho caído
A calma é só uma cortina
do lado de dentro, a automutilação de uma poetisa
lá fora, um funk alegre trepida
no porão, no porão só o que não respira
A providência é só um fio segurando um touro
atrás, um campo limpo e a graça do vento nas bétulas
à frente, um bando de moscas
longe dali, Bispo do Rosário costura um outro nas sombras
A satisfação é só o vazio de um tanque aquático
durante, os arrepios do acéfalo
depois, nem um pio
só se escuta o estertor das orcas
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
(sem título)
debaixo de camadas e camadas
de sorte e hábito
encontra-se a cripta onde guardo
minha pequena máquina de Morel
a máquina de superar ausências
não sei como se constrói
não se perguntem
leva tempo, e com o tempo,
vai-se uma leva de amores,
e com essas setas então vazias,
vai-se o tempo de se fazer perguntas frias
também esqueço de escrever sobre mim,
a máquina sabe-me por onde descreve-me
como o lobo e a neve, como o capim e a flor,
como a vida infinita de Turguêniev
mas às vezes a terra treme, a máquina emperra
a alma geme
quinta-feira, 6 de novembro de 2014
Não escrevo mais
Porque há cores e carinho por todos os lados,
e também o Exército de Israel
Porque há Louis Vuitton, Nasdaq, programa social
e o quinto dos infernos marsupial
Porque houve Varsóvia. Porque há tanta esbórnia.
E porque haverá a ex-República Viva da Amazônia
Porque não há mais Metafísica; só interpretações.
Porque o rico virou empreiteira, o pobre virou geladeira;
o índio virou espelho e morreu
Porque é cedo e tarde demais.
Porque a política é kitsch e natureza morta é o povo.
Porque a culpa é das estrelas.
Porque descobriram o pré-sal.
Porque há o salão do automóvel, a feira do livro, a festa da uva e da democracia;
o festival do peixe, do queijo, do ódio.
Porque há polícia, milícia e melancolia.
Porque não faz sentido usar olhos e saudade pra falar de amor.
Porque acabou.
segunda-feira, 11 de agosto de 2014
Lânguido reflexo (reescrita)
Eu vivo o
rio onde morrerei a nado
eu vivo em minha nave imprópria, decadente e sóbria
a nave mãe da triste ossada
a nave pesada das eternas águas
eu vivo em minha nave imprópria, decadente e sóbria
a nave mãe da triste ossada
a nave pesada das eternas águas
Eu vivo
poente em janela de ideia extensa
novelo de minha jangada densa
Eu vivo a câmera lenta das mágoas
novelo de minha jangada densa
Eu vivo a câmera lenta das mágoas
Eu desço
o lago do tédio, úmida morada
regaço de minha armada e pólvora do desassossego
regaço de minha armada e pólvora do desassossego
Eu
naufrago no mar dos trôpegos,
esquinas e sinais vermelhos
O puído dos olhos velhos em meu lânguido reflexo
esquinas e sinais vermelhos
O puído dos olhos velhos em meu lânguido reflexo
Eu vivo a
nave a recobrar o tato
vez perdido no enfado,
Vivo a reaver o nado neste modesto retalho,
o mundo, em recíproco escárnio
vez perdido no enfado,
Vivo a reaver o nado neste modesto retalho,
o mundo, em recíproco escárnio
Eu vibro
em ondas das quais destoo
rios que me foram expulsos
bombas que me foram postas
versos que voltam como recuos
rios que me foram expulsos
bombas que me foram postas
versos que voltam como recuos
Eu venho
varrer a nuvem espessa
atravessar-me o oceano com a nave imprópria
Eu vivo a nave inglória das promessas
atravessar-me o oceano com a nave imprópria
Eu vivo a nave inglória das promessas
onde a nave decanta seus gritos
e onde o mito reencanta a estranha pousada
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