terça-feira, 16 de junho de 2009
Pó
Brota, agora, a flor clara de três ou quatro minutos felizes de um dia qualquer, para trás... O calor do chá nas mãos perdia-se confusamente no calor do rosto pelo sol; em meus olhos surgiam gotas que recebiam o brilho ofuscante que caía do céu. Que débil razão sopraria as velas desta solidão borrada? Por muito pouco não beijei a boca do universo, e um riso bastante vago trouxe-me de volta ao quarto gélido. Um passo em vão, um a mais, a pisar o leve e puro perfume da memória.
quarta-feira, 20 de maio de 2009
Partícula primeira: um começo
Desdobrando suas idéias, ele pergunta aos psicólogos de hoje onde está o seu espírito, a sua virtualidade, a sua inutilidade. Por quê se ater tão obstinadamente, senão cegamente, ao instante mais fugaz, a ação cravada no presente, a hereditariedade de movimentos em linha reta, apenas? Onde está a imensidão do tempo em ti, cadê teus círculos, pastor de almas perdidas? Perderam a gloriosa largueza e densidade que não têm medida, ou estas jamais foram tuas, esta é a razão da velocidade oca? Ou vazias são essas reclamações do espírito? Neste vagar, ele segue cruzando a rua, nosso mais novo homem do subsolo, Roman Woolgar, rival impiedoso de si mesmo, bem articulado, esbelto na sua melancolia inteligente, em camisa branca bem passada e casaco de terno em linho reles, guarda seus 43 anos de vida, cuja maior parte lutou contra paixões desregradas, sua verdadeira e bendita maldição.
quinta-feira, 30 de abril de 2009
Imagem máquina
Imagine um fio adentrando o centro de sua circunferência craniana na direção do solo. Então ele se reparte na altura dos membros superiores, e também segue na direção do ventre, até se partir novamente para tocar através do túnel de cada perna a extremidade inferior. Aí, exatamente no fim do percurso, a integridade do fio se expande em grampos afiados como uma espinha metálica. De súbito, num corte bruto, o fio inteiro é sugado pela mão de Deus. Eis o teor da necessidade e do chamado absoluto para a virtude humana na terra.
sábado, 18 de abril de 2009
À deriva
O tempo da experiência mais nua é o tempo da contemplação, da paisagem, da situação no tempo, da admiração, somente a plasticidade da arte pode realizá-lo mais perfeitamente, através de qualquer alegoria.
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