terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
acorda!
queria deixar o êxtase cochilar depois de ter sido pólvora e mundo, mas tudo era forte, pulsante... se o coração gritasse agudamente, nem assim, riscaria o inferno como naquela hora. mas para quê deixar o sono desviar tudo aquilo, como se com ânimos mais amenos fôssemos mais humanos, se humano não fosse essa guerra de lados onde não estamos; no fim das contas, em nenhum deles, mas somos rasos o suficiente para acreditar que sim, que apesar de tudo restamos em algum ponto, bobagem, somos sólidos e eternos como um riso de estupor e sorte... não somos mais estúpidos pela normalidade do que quando encarnamos um gênio, a vida está no deslize sobre o limo de não ser muita coisa durante as horas em que pensamos ser... e não dá graça ser partido, assim, em mil gestos e ideias, amante, fátuo, infantil? queria ser assim todos os dias, uma película capaz de guardar a memória mais frágil, a hora mais doce e também cruel de uma alegria eternamente viva e morta naquela pequena falha em carne e alma maliciosa em que escondo o que sou de mim vazio, ali, no canto escuro de nada e flor, de voo, de amor... e não gostaria de ser nada, se o preço fosse por todos os dias, quero estar onde estou, vadio entre mundos... somos mais e menos do que deuses deliraram, e somos bem mais do que o tédio, a culpa e a tristeza nos fazem acreditar quando fraquejamos, somos, nas super-linhas da vida, livres!
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Balzac... A graça essencial
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(Não é de meu costume reproduzir textos alheios, mas não há nada que não mereça exceção, e este é um caso prodigioso. É encontrar gravado aquilo que já escrevemos, mas de uma maneira ainda melhor, mais clara e serena, mais aguda e certeira, mais bela e tranquila. Balzac me acertou em cheio... Divido, assim, minha paixão.)
"Não conhecemos todos um amável egoísta, que possui o segredo de nos falar muito sobre ele sem nos desagradar? Tudo, nele, é gracioso, fresco, requintado, até mesmo poético. Ele causa inveja. Ao mesmo tempo que nos reúne a seus prazeres, a seu luxo, ele parece temer nossa falta de fortuna. Sua obsequiosidade, toda ela feita de conversa, é uma polidez aperfeiçoada. Para ele, a amizade não é senão um tema cuja riqueza conhece admiravelmente bem e cujas modulações ajusta segundo o diapasão de cada pessoa.
Sua vida está marcada por uma personalidade perpétua, da qual se redime graças às suas maneiras: artista com os artistas, velho com um velhinho, criança com crianças, ele seduz sem querer, pois nos mente em seu interesse e nos diverte por cálculo. Ele nos acolhe e nos afaga porque está enfadado e, se hoje nos damos conta de que fomos iludidos, amanhã iremos novamente nos deixar enganar... Esse homem possui a graça essencial.
Mas é uma pessoa cuja voz harmoniosa imprime à conversa um encanto que se difunde também por suas maneiras. Sabe quando falar e quando se calar, ocupa-se dos outros com delicadeza, não lida senão com assuntos convenientes de conversa; suas palavras são felizmente escolhidas; sua linguagem é pura, seu gracejo é carícia e sua crítica não fere.
Longe de contradizer a ignorante segurança de um tolo, parece buscar, na companhia dos outros, o bom senso ou a verdade. Não disserta, assim como não discute; compraz-se em conduzir uma conversa que interrompe quando achar conveniente. De humor constante, sua atitude é afável e sorridente. Sua polidez não é nada forçada, sua solicitude não é servil; reduz o respeito a não mais que uma suave sombra; jamais cansa as pessoas e faz com que fiquem satisfeitas com ele e com elas próprias. Atraídos por sua esfera por um poder inexplicável, encontraremos seu espírito de boa graça gravado nas coisas que a cercam; tudo aí afaga a vista e respiramos como que um ar de pátria. Na intimidade, essa pessoa nos seduz por um tom genuíno. Ela é natural. Nunca com esforço, com luxo, com exibição; seus sentimentos se exprimem de forma simples por serem verdadeiros. Ela é franca, sem ofender qualquer amor-próprio. Aceita os homens como Deus os fez, perdoando os defeitos e os atos ridículos; compreendendo todas as idades e não se irritando com nada, porque ela tem o tato de tudo prever. Ela obsequia em vez de consolar, ela é terna e alegre: assim, gostaremos dela irresistivelmente. Nós a tomaremos como modelo e lhe prestaremos culto."
(Não é de meu costume reproduzir textos alheios, mas não há nada que não mereça exceção, e este é um caso prodigioso. É encontrar gravado aquilo que já escrevemos, mas de uma maneira ainda melhor, mais clara e serena, mais aguda e certeira, mais bela e tranquila. Balzac me acertou em cheio... Divido, assim, minha paixão.)
"Não conhecemos todos um amável egoísta, que possui o segredo de nos falar muito sobre ele sem nos desagradar? Tudo, nele, é gracioso, fresco, requintado, até mesmo poético. Ele causa inveja. Ao mesmo tempo que nos reúne a seus prazeres, a seu luxo, ele parece temer nossa falta de fortuna. Sua obsequiosidade, toda ela feita de conversa, é uma polidez aperfeiçoada. Para ele, a amizade não é senão um tema cuja riqueza conhece admiravelmente bem e cujas modulações ajusta segundo o diapasão de cada pessoa.
Sua vida está marcada por uma personalidade perpétua, da qual se redime graças às suas maneiras: artista com os artistas, velho com um velhinho, criança com crianças, ele seduz sem querer, pois nos mente em seu interesse e nos diverte por cálculo. Ele nos acolhe e nos afaga porque está enfadado e, se hoje nos damos conta de que fomos iludidos, amanhã iremos novamente nos deixar enganar... Esse homem possui a graça essencial.
Mas é uma pessoa cuja voz harmoniosa imprime à conversa um encanto que se difunde também por suas maneiras. Sabe quando falar e quando se calar, ocupa-se dos outros com delicadeza, não lida senão com assuntos convenientes de conversa; suas palavras são felizmente escolhidas; sua linguagem é pura, seu gracejo é carícia e sua crítica não fere.
Longe de contradizer a ignorante segurança de um tolo, parece buscar, na companhia dos outros, o bom senso ou a verdade. Não disserta, assim como não discute; compraz-se em conduzir uma conversa que interrompe quando achar conveniente. De humor constante, sua atitude é afável e sorridente. Sua polidez não é nada forçada, sua solicitude não é servil; reduz o respeito a não mais que uma suave sombra; jamais cansa as pessoas e faz com que fiquem satisfeitas com ele e com elas próprias. Atraídos por sua esfera por um poder inexplicável, encontraremos seu espírito de boa graça gravado nas coisas que a cercam; tudo aí afaga a vista e respiramos como que um ar de pátria. Na intimidade, essa pessoa nos seduz por um tom genuíno. Ela é natural. Nunca com esforço, com luxo, com exibição; seus sentimentos se exprimem de forma simples por serem verdadeiros. Ela é franca, sem ofender qualquer amor-próprio. Aceita os homens como Deus os fez, perdoando os defeitos e os atos ridículos; compreendendo todas as idades e não se irritando com nada, porque ela tem o tato de tudo prever. Ela obsequia em vez de consolar, ela é terna e alegre: assim, gostaremos dela irresistivelmente. Nós a tomaremos como modelo e lhe prestaremos culto."
Extraído de Manual do dândi: a vida com estilo.
Tradução de Tomaz Tadeu. Editora Autêntica
Tradução de Tomaz Tadeu. Editora Autêntica
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terça-feira, 19 de janeiro de 2010
partícula VI: o lago
- O que foi, Roman?
- Suas sobrancelhas... Olha o horizonte aberto aqui do cais, a paisagem líquida do lago e o ar seco que vem até nós... É bom ficar aqui, ainda assim, estou partido, em duas belezas, metade no lago, metade nas suas sobrancelhas, aberto entre duas perfeições...
Natalie sorriu, como era de costume sorrir respondendo as insinuações de Roman, apesar de conhecê-lo há anos, aquele homem ainda sabia tirar um sorriso inocente daquela mulher, entre eles sempre um abismo, mas um abismo tão cheio de laços, silêncios tão cheios de sentido, e nunca foram amantes, não, não como poder-se-ia pensar, sempre amigos, por vezes indiscretos um com o outro, outras grosseiros, noutras ainda apaixonados, não inteiramente, só por um olhar, ou idéia... ou sobrancelhas...
- E agora, o que vai fazer da sua vida, meu caro senhor?
- Assaltar o Banco Nacional, talvez, depois passar algum tempo no Egito...
- Roman! - suspirou, Natalie, na intenção de que a conversava seguisse um pouco mais séria.
- Nada, a vida vai fazer de mim, acho que será isso. Logo deverão me tirar da pensão, se nada acontecer, de que não tenho receios, querida - ele dizia aquilo com segredo nos olhos, mas quem saberia dizê-lo -, passou-se o tempo em que eu fora violentado pelo mundo, e não fora como vítima, não, sempre fui cúmplice dessa violência, mesmo que às avessas, jamais me entreguei de má vontade à vida, porém, agora, o mundo tornou-se-me amante, o que não significa que amar não seja violentar, mas a forma é outra, e a sedução também, eu o quero, esse mundo, como nunca o quis, ele me chama em silêncio, eu respondo em ardor, não me tem mais com beijos, mas quando toca a minha mão!
- Suas sobrancelhas... Olha o horizonte aberto aqui do cais, a paisagem líquida do lago e o ar seco que vem até nós... É bom ficar aqui, ainda assim, estou partido, em duas belezas, metade no lago, metade nas suas sobrancelhas, aberto entre duas perfeições...
Natalie sorriu, como era de costume sorrir respondendo as insinuações de Roman, apesar de conhecê-lo há anos, aquele homem ainda sabia tirar um sorriso inocente daquela mulher, entre eles sempre um abismo, mas um abismo tão cheio de laços, silêncios tão cheios de sentido, e nunca foram amantes, não, não como poder-se-ia pensar, sempre amigos, por vezes indiscretos um com o outro, outras grosseiros, noutras ainda apaixonados, não inteiramente, só por um olhar, ou idéia... ou sobrancelhas...
- E agora, o que vai fazer da sua vida, meu caro senhor?
- Assaltar o Banco Nacional, talvez, depois passar algum tempo no Egito...
- Roman! - suspirou, Natalie, na intenção de que a conversava seguisse um pouco mais séria.
- Nada, a vida vai fazer de mim, acho que será isso. Logo deverão me tirar da pensão, se nada acontecer, de que não tenho receios, querida - ele dizia aquilo com segredo nos olhos, mas quem saberia dizê-lo -, passou-se o tempo em que eu fora violentado pelo mundo, e não fora como vítima, não, sempre fui cúmplice dessa violência, mesmo que às avessas, jamais me entreguei de má vontade à vida, porém, agora, o mundo tornou-se-me amante, o que não significa que amar não seja violentar, mas a forma é outra, e a sedução também, eu o quero, esse mundo, como nunca o quis, ele me chama em silêncio, eu respondo em ardor, não me tem mais com beijos, mas quando toca a minha mão!
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
profissão
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Tenho algumas maneiras boas de apinhar as letras da minha alma, poderia ser escritor... E até ganhar alguns tostões... Mas não tenho talento nem me apaixona saltar nesse devaneio. Eu tenho dom mesmo é para ser um sentidor, mas não hão de me pagar por isso...
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Tenho algumas maneiras boas de apinhar as letras da minha alma, poderia ser escritor... E até ganhar alguns tostões... Mas não tenho talento nem me apaixona saltar nesse devaneio. Eu tenho dom mesmo é para ser um sentidor, mas não hão de me pagar por isso...
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