sexta-feira, 9 de julho de 2010

o deslize é um acerto incerto

as mãos têm a destreza de um incêndio
quando o corpo fumaça recende
e as pálpebras simulam janelas cerradas

a pele é um frasco de fogo ao avesso,
e a vida tem o mesmo cheiro e arde
quando as narinas são baldes de aconchego

o peso e a fresta são amigos do vento,
e os vãos e as fossas me adentram afora
que os pés são rastilhos do tempo

e se a noite dos amantes é tormenta,
as horas - estas não sei como dizer -
são as vísceras dos meus olhos riachos!

quinta-feira, 8 de julho de 2010

calhamaço

enquanto o sempre,
sem menos,
se desfaz

sobre alma alguma

de quem não sei,
logo e dúvida se desprende

vem alguém

depois e para
e mais agora, e mais

tudo esquece

só e nada e pó
embrutece - a

pedra ausente

de não vir pluma,
sem-pre-sente dura

segunda-feira, 5 de julho de 2010

sobre grifos e agulhas

deveria o amor se distrair, assim, recente?
e se na noite, dos dentes, saísse-se-me pequenos carinhos,
porque não posso arrancar-te de ti inteiramente?
e pensar que é besteira querer-te ainda tão jovem de mim,
tragado pelo descompasso de quem mais pode ensinar-nos -
o tempo

vejamos a lógica dos soluços entre dois de nossos silêncios:
enquanto me embaraço no gesto de sonhar ao teu lado,
tu sossegas no perfil de tuas cicatrizes
dois futuros em mim sedentos
pelo titubear de dois passados em ti suspensos

não tenho jeito para endereçar os gozos em mim:
de repente vejo-me pedra em pleno ar... queda
tão logo vejo-te ventar nas minhas dunas,
e mesmo com pudor, arrepia-me te ver arrastar meus horizontes
e a sorte nem sempre segue teu encalço,
tendo vezes em que adentro teu mar inteiro,
tuas ondas e tuas ressacas
e sigo plataforma e aço!

mentira seja dita: a verdade é a mais tacanha desesperança
e se eu costuro algum fim às avessas com fina fazenda
é para adormecer teus ouvidos com um suspiro de espera
e cegar teus olhos com um pequeno beijo de seda

(é só uma canção decadentíssima)

Ao meu querido amigo de O tango dos guarda-chuvas


somos desertos, somos insetos
nós somos verdes e aranhas e dejetos
a artimanha do camelão

somos a barba de um poeta idiota
o nosso abraço é nosso espaço mais aberto, mais sereno

o nosso fôlego é quase mínimo
é um cão ladino, um vespertino adolescente, um amor doente
uma ternura, em nosso rosto fere a pura ofensa tola
dos camaradas, dos doidivanas, dos infelizes e dos normais