quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
o Nome
A vida é só um nome.
Uma ranhura que apaga.
A vida é breve: FPK
A caixa de descarga de um bar vencido.
A vida foi um nome
que arrodeava a tua volta.
Era uma volta e mais uma volta
a enrolar o teu cabelo liso.
A vida embaraçava teu riso, tudo.
A vida se despiu num lusco-fusco,
depois enterrou-se
num balde de concreto.
Era um riso e mais um riso no meio de outro riso
a desenrolar o teu lado escuro.
Tem nome pra dizer tanto adeus,
tem riso que dê tantas voltas?
Tem riso pra tantas revoltas?
Tem ainda? Nessa vida escura:
FPK
Tem um rosto desenhado num rosto:
pobre sobreposto que desdenha, só
Tem uma caixa, numa casa vazia,
num mundo concreto, num...
Que não é meu, nem foi.
E que todo mundo diz e arranha.
Quem sabe o nome, quem sabe o que diz,
quem sabe é breve?
Não volta. Não revolta.
Não pergunta se está na hora
E se apaga
terça-feira, 27 de novembro de 2012
O que não
Sem esperança e sem desespero.
Falta-me a calma e na
alma contradigo-me com espinhos de aço.
Os anos trazem algo estranho e
a praga cartesiana assola cirurgicamente,
assassinando a primavera do Tempo.
O corpo sobrevive e a mente se exaure
na velha cadeira de
balanço da apatia.
Tratei esse vício com doses potentes de paixão.
Atirei-me no fundo desse liquidificador.
O corpo estonteado alcançava as idéias de um lado,
e do outro, a mente turbilhonava braços e estômago.
Éramos um Coração! Mas tudo falhou.
Agora restam lapsos desconjuntados onde
antes houvera grandes
temporadas.
Segunda-feira, o trabalho;
Domingo, o tapete amarelo de flores
e as luzes de mercúrio
ao fim da tarde;
Sexta, a alegre folia, plagiando deuses antigos,
relembrando os entusiasmos da vida,
considerando com enorme coragem
o que hoje é a mais triste bagagem, o futuro.
Hoje, de verdade, bastam as horas aflitas.
A nostalgia, a consciência e as doses amargas do Destino.
Contra todos eles a Força e o seu claro-escuro da vitória.
Se houver Força.
Eu me pergunto que fundo é este,
o sentido de tudo, a seta dos deuses.
Não me pergunto mais.
O Deus, o éter, o ver de cima e comparado
e o tamanho relativo de cada coisa,
o ar puro dos cimos, a saga de alcançá-lo,
a mais esbelta das aves e o mais desconcertante dos vôos,
os cavalos alados, os dragões de guerra, a brilhante queda.
Tudo está no alto.
E agora se perguntam onde está o problema.
Eu vos digo, é o hiato da existência, a Tragédia.
A realidade das pedras, o ato-falho dos átomos,
o estrondo das ondas, e tudo que se lhe assemelha e
irrompe como um imenso nó na garganta –
O esplêndido dinossauro terrestre.
Que não dorme, não come. O Diabo existe. Porque sonha.
terça-feira, 30 de outubro de 2012
Estou errado em dois mil e nada.
Não acenda a luz, por favor.
Meus olhos estão cheios.
Não acalme nem desvie os seus. Deixa o escuro
Respirar o facho; deixa o cansaço servir.
Eu sonho um lugar e nele ponho os pés de molho,
Eu sonho a expansão do facho envolvendo os pés,
Levando-os ao lugar do sonho, enterrando o sonho.
O que não é lugar, isto é acordar. O que é sonho manobra a matéria.
O que surge não sei. Eu sinto um sentimento a menos e basta.
Os olhos doídos não se fecham mais em águas.
A luz é uma porta aberta sem espera. Sem graça.
É a sincronia do retardo, a máxima.
As água, os olhos, os sonhos... Apodreceram.
O corpo não responde mais à ilhada, não sangra mais,
Não pede mais. Eviscera a palavra Nada, quase toda palavra.
Os olhos, meus olhos, me olham com ares de certeza. Sem raios.
Tem no mundo mais que a besteira de doer e não doer?
Tem mais que a de pensar ou não pensar?
Pois tem a de estar e não estar. E a pior, a de ser.
Mas o mundo está nem aí, está só, na ideia do bobo,
Do dia, da gota, do beijo, da sopa e da linha absorta do tempo.
No sonho, teus olhos contavam maneiras de mentir.
Dentro deles um campo extenso, dentro deles uma vida exata,
Dentro, uma vida inteira.
Havia abismos e manadas. Eu estava preso.
Havia fogo, a faísca do homem, havia carne,
havia sentido. Eu estava preso na felicidade.
É a diacronia do atraso. O passado que vai passando sem passar.
O arrasto que vai cessando sem cessar.
Como revisitar o lugar amado na memória,
todos os sentidos se embolsam no agora, na resposta,
na besteira-vitória de estar em pleno andar e ver,
de rever a vida que já morreu.
A sabedoria não leva a nada. A Estrada não leva a nada.
A poeira sim, leva à poeira, ao poema, ao boêmio,
ao passo mais incauto que o do primeiro macaco,
aquela ilhada, que é a alma desalmada. O símio robô
no peito, que bomba as desilusões do homem.
A seriedade do olhar que acusa, recusa e mata.
terça-feira, 2 de outubro de 2012
Bem distantes
É só um bloco uniforme no céu,
é só uma forma geométrica comum.
É só um círculo, da cor sem cor trivial.
Qual a tua dignidade, então?
Não tens vida, não tens luz,
satélite à mercê, falta-te mesmo gravidade.
Por que és a canção mais bonita dos noturnos?
Pletora de apócrifos, assim é que meu coração
gostaria de ofender-te.
Falsa rodela de emoções.
Mas tua mentira, teu contorno, teu véu...
Maldito júbilo que pariste nos amantes.
Os galhos esguios te apontam,
parecem chamar-te, úmidos.
As gotas do orvalho despencam das calhas
como se os telhados chorassem secretamente.
Que meus olhos nunca tivessem visto
este desespero dos zincos.
Nem sentido há em tua imagem,
gigante tambor de solidão.
Vês, contradigo-me, é o mal de tua nudez,
o mal de teu vórtice feminino, o mal de tuas
ordens sobre a desordem dos canalhas.
Devolve em teu reflexo a pobreza de minhas marés.
Vês que entrego-me ao teu mal.
Cortaste a cúpula escura calmamente,
enquanto o tempo agonizava aqui embaixo.
Lânguida noite, lânguido horizonte.
Como chegaria o sono, se teus módulos
impelem meus nervos a uma gentileza sem fim.
Os galhos esguios dos meus braços que te chamam,
as gotas do meu orvalho que calham
agora sobre ti. Acho que neste falso momento para mim,
e eterno para ti,
colidimos nosso longínquo passado,
nossas rochas liquefeitas deram-se as mãos.
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