sábado, 26 de junho de 2010

nove graus


à meia noite, sob nove graus
em hora que nos sentimos vivos
qualquer grito seria um falso desatino
saindo de nossas bocas em lençóis de vapor
um sangue rebelde e quente
rebatendo o gelo solene ao redor

como um desespero que não se engana de ser atropelo

à força de nossos olhos abertos
o vento declina em gota
e repentinamente, um sonho se nos atravessa discreto
qual dos goles fez-me escravo de ti inteiro
quem das perdas aprendera a deixar-se rir

há nas horas de amor um ar nem triste nem feliz
porque o tempo se atem sobre si
de tal maneira que sente apenas a fome
de agora, não ter mais de si a perder

nossos olhos poderiam mentir: se quisessem
como arrepios, poderíamos ser breves
depois de eu beijar tuas têmporas com tanta pólvora
poderíamos ter a calma de explodir
e seríamos leves, então, se não fôssemos corpos
se fôssemos âncora contra a corrente das nossas mãos

e se o frio nos corta à meia noite,
em hora que nos sentimos vivos
talvez sejamos inevitáveis avisos
de que o inverno afia a lâmina de nosso próximo verão

segunda-feira, 31 de maio de 2010

pro-lixo, nem pensar

.
chega, do amor não trato mais
agora sou de prego e parafusos -
telhas que não chamam mais goteiras
não tiro mais o sono alheio, é feio, me disseram
a chuva mente que o teto quer chorar
deixa, de sofrer mais ninguém quer saber
agora importa o plátano caído e pisado
o latido acuado do cão perdido
o samba ressentido do velho coitado
será que começar por um lírio bêbado dará um bom poema?
de todos nós o pó interessa ao futuro, que absurdo
o conto resumido do eterno tilintar no frio, não, é febril, não é?
ah, quase me perdi por nessas linhas erradas
a canção já vinha tinta se assanhando sobre o pobre papel
logo eu rio, logo logo depois o mar virá sertão
e da carne vai restar arame e arado e solidão
do teu olho que não brilha, brinca de bilhar, é, comigo
agora só resta aresta, logo vai embora, eu sei, querendo ficar
é sábio (se) enganar, olhar de lado, deixar a roda rodar
nem é tão triste assim deixar pra lá...
nem é tão frio aqui no sul, nem é tão azul o céu
é mais bobagem perder a piada que o amor
é mais amor rir, vai ser rio pra ver o mar, vai lá amar
agora sou de prego e parafusos, peraí
deixa eu apertar o coração, não, deixa pra lá
perdi a chave, fiquei na fenda, fecha os olhos, vou passar
.

sábado, 29 de maio de 2010

atende por todos os nomes

.
não me farto do amor, nem me furto desse roubo em nós
essa coisa, esse ouro,  esse papel o mais vagabundo
colado na sola dos nossos sapatos
perseguindo até o fim da estrada, como se fosse reles
nosso dia, nossa an-dança, nossa pequena folha rastejante

estamos indo pra onde, parece inquirir o vento
e venta calma, a derradeira brisa no meu rosto exausto
que ao te ver turva o próprio leito e derrama
sobre as mãos nervosas, não, sobre o corpo em surto
o desejo de ser de todas as coisas e teu

cultivamos sem saber do desespero que espera
esse amor do ventre às pontas dos dedos
na fortaleza de uma bola de sabão
não é belo cortejar o sopro que nos estoura?


volta a brisa amena pra secar nossa lágrima escura
e coragem pra nos despedirmos com carinho
faz-se as pazes com a felicidade e o adeus
e a vida inteira se condensa no segredo de estender as mãos

quinta-feira, 20 de maio de 2010

mirei no chafariz, acertei o carrossel: quase paralaxe, não fosse o coração

.
se do teu olho, o brilho
fosse uma cama elástica 
eu saltaria de costas
sabendo dos sabres, do mais alto dos edifícios

se do teu rosto, o vermelho
fosse um nariz de palhaço
eu morreria de cócegas
fazendo rir os ossos do meu mais pesado ofício

se teus saltos fossem longe demais
voando sobre pernas-de-pau
eu apertaria até doer meu passo
pra não te perder jamais de vista

se tuas sinas fossem as de um clown
zombando dos velhos e tristes rivais
eu brincaria, na terra, de artista
e no espaço, de poeira e luz e rastro...