quinta-feira, 25 de junho de 2009
Partícula terceira: o espelho
R. Woolgar acabara de chegar em sua pequena casa, de apenas dois cômodos, e muito fria. A escassez da mobília compensava a multidão inteligente que habitava aquela estranha alma. Numa das paredes da sala, ao lado do cabide de entrada, um pequeno espelho, bastante comum, pregado àquela altura desde há muito tempo, decerto por um morador mais antigo, a refletir desafortunadamente, dia-a-dia, a imagem misteriosa daquele homem. Roman Woolgar tinha as feições agudas, as mãos delicadas e longelíneas, sombracelhas negras, e seus olhos eram verdes, fascinantes e verdes, como duas esmeraldas terrivelmente felinas, soberbas, melancólicas. Sua pele era de uma tonalidade árabe, mas sua ascendência, cicatrizando em sua alma, era nórdica, era fria, como um crepúsculo boreal. Roman era muito magro, e ao mesmo tempo muito forte, seus músulos se avivavam facilmente sob a pele, mas o seu ímpeto pouco condizia com esta força, era calmo e reflexivo na maior parte do tempo. Depois de livrar a chaleira sobre a chama, quedou-se sobre uma das duas cadeiras da cozinha, recanto estreito mas agradável daquela mansarda; aguardava descansado, com as pernas cruzadas, as mãos levemente abertas sobre os joelhos, e os olhos fixos na luz tímida que invadia a peça, o primeiro cheiro da essência com morangos e eucaliptos que deixara para ferver, e eis que como seda o perfume lhe tocava o nariz.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Partícula segunda: as máximas
Logo no primeiro passo em direção ao outro lado da rua Roman despedia-se do caminho ordinário, seguia-se daí um daqueles momentos em que somos expulsos de nossa própria morada por fantasias, idéias, utopias, enquanto a casa, obviamente, seguia em sua estada. Roman, então, atravessava e não atravessava a rua. Imaginava ele o objetivo para a vida de um homem qualquer, já que ele, nesse lance de dados, não poderia pensar em si mesmo, pois andava desmaterializado: antes que o Universo ordene que me torne nada mais que uma lembrança, devo jurar que minha vida tem sido uma disputa frágil, feliz e tortuosa em nome da virtude. Sou uma caçador inveterado de máximas, porém, sou também a presa fácil de meus pormenores. Não demorou, entretanto, para que sua carcaça espiritual caísse novamente sobre a sola de seus pés. Avistou o corredor úmido que o levava à caverna moderna que volta e meia habitava. Deixou-se ir.
terça-feira, 16 de junho de 2009
Pó
Brota, agora, a flor clara de três ou quatro minutos felizes de um dia qualquer, para trás... O calor do chá nas mãos perdia-se confusamente no calor do rosto pelo sol; em meus olhos surgiam gotas que recebiam o brilho ofuscante que caía do céu. Que débil razão sopraria as velas desta solidão borrada? Por muito pouco não beijei a boca do universo, e um riso bastante vago trouxe-me de volta ao quarto gélido. Um passo em vão, um a mais, a pisar o leve e puro perfume da memória.
quarta-feira, 20 de maio de 2009
Partícula primeira: um começo
Desdobrando suas idéias, ele pergunta aos psicólogos de hoje onde está o seu espírito, a sua virtualidade, a sua inutilidade. Por quê se ater tão obstinadamente, senão cegamente, ao instante mais fugaz, a ação cravada no presente, a hereditariedade de movimentos em linha reta, apenas? Onde está a imensidão do tempo em ti, cadê teus círculos, pastor de almas perdidas? Perderam a gloriosa largueza e densidade que não têm medida, ou estas jamais foram tuas, esta é a razão da velocidade oca? Ou vazias são essas reclamações do espírito? Neste vagar, ele segue cruzando a rua, nosso mais novo homem do subsolo, Roman Woolgar, rival impiedoso de si mesmo, bem articulado, esbelto na sua melancolia inteligente, em camisa branca bem passada e casaco de terno em linho reles, guarda seus 43 anos de vida, cuja maior parte lutou contra paixões desregradas, sua verdadeira e bendita maldição.
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