terça-feira, 15 de julho de 2014

Lânguido reflexo




Eu vivo no rio / onde morrerei a nado / eu vivo em minha nave imprópria/ decadente e sóbria / a nave mãe da triste ossada / a nave pesada das eternas águas

Eu vivo poente em janela de ideia extensa / novelo de minha jangada densa / Eu vivo a câmera lenta das mágoas

Eu desço o lago do tédio/ úmida morada/ regaço de minha armada e pólvora do desassossego

Eu naufrago no mar dos trôpegos/ esquinas e sinais vermelhos/ o puído dos olhos velhos/ em meu lânguido reflexo

Eu vivo a nave a recobrar o tato/ vez perdido no enfado/ de vez reaver o nado/ nesse retalho d'água / o mundo/ em recíproco escárnio

Eu vibro em ondas das quais destoo/ rios que me foram expulsos/ bombas que me foram postas/ versos que sacrifíco

Apesar/ eu devo varrer a nuvem espessa/ atravessar-me o oceano/ com a nave imprópria levitar/ eu vivo a nave onde a nave esvai

Então navego ao liceu do exílio/ onde a nave decanta o seu grito/ e ao asilo retorna



quinta-feira, 26 de junho de 2014

Tétano



Abriu-se a pedra outra vez
De tempos em tempos o coração racha
Vê-se o opaco nos olhos
e a carcaça dos corpos
Sente-se a secura dos lábios

O íngrime laboratório da vida fibrila!

Em cada espantalho dói um sentimento trincado
Parecem negar terem visto o túnel faminto
Ninguém sabe quando a morte começa
Desconverso:

Agora me vem aquele lençol de estrelas
Quem dera ser tão só a empilhadeira dos teus olhares
Dar um nó nos trilhos que te afastam,
Escangalhar as linhas até reconvertê-las a um único traço

Mas o que digo assim vacilando os poros?
- Deixei para trás as mulas sem cabeça
- Mergulhei de vez na matéria bruta
- Declinei, incendiado, de ressuscitar-vos!,
jogando qual macacos as partes mortas
do meu coração nas vossas caras

Em cada hedonismo um cadafalso
Em cada seio e em cada pau e em cada bar
e em cada boca uma grande e gulosa e fastigiosa mentira!
Todo gozo um infinito pleonasmo
Mas em cada fresta do mundo tem um ser-humano frio e encolhido
Em cada gargalhada milhares de casas de papelão

Mas o que faço ainda rodopiando os mesmo símbolos?
Como revirar o lixo para matar a fome
Ou dançar descalço para provar sutileza
Ou vestir ideologias para sentir-se útil

Fodam-me aqueles que veem lirismo no mais profundo oco!
Peguem suas bandeiras, deem tiros para o alto
Sintam o cheiro de cominho e mel no mar da Turquia,
revirem seus estômagos e durmam em paz!






terça-feira, 11 de março de 2014

Deserdado, ou quem sabe?



Tenho as mesmas chances de

Uma barata. É o que me dá nas vetustas telhas,

as cascas já tanto grossas e as velocidades

cada vez mais lentas



E ainda tenho que limpar o vosso mijo de sábado,

Aquele pelo qual pago de verdade.

Também devo juntar os cacos da vossa gargalhada.

Como doem os cacos da vossa gargalhada!

Obturar o mal-humor, as horas e mais horas

E mais horas



Vem-me a lembrança de um fogão à lenha

Na casa de minha avó materna.

Eu fazia de sua alça o guidão de minha locomotiva

Como meus olhos não turvariam agora

Se vida corria tão grata, se havia o cheiro de doce de

Abóbora; se meus trilhos tinham toda a graça e

E nos meus dias eram os sonhos que deixavam rastros?



Hoje me escondo debaixo desse tanque de guerra,

Seiscentas Kiev me rasgam. Por dentro me correm

Areias, é o movimento que me ignora.

Tornei-me uma daquelas serpentes no deserto,

Engatilhadas por debaixo da derme.



sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Sinto muito:




Sempre que pensei em dar-me um tiro

Terminei em versos



Porque amo tanto o gosto da vida

Minha própria fraqueza obstrui-se



Nunca permiti que o lirismo

Usurpasse um deus



Não culpo quem vestiu a

Brutalidade com a carne nua



O sol deposto sobre o trigal é

Van Gogh sendo-nos triturado



O mar é tudo que deus

Não permitiu ao homem sofrer



Morrer é uma sorte,

Fui condenado a felicidade da vida



E um saco de lixo preto, surpreenda-se:

É mais útil que um poeta