quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Bom dia!

Desci as escadas já moído para o café
O coração feito manteiga derretida
Na mesa, a cesta de toalha xadrez
E com ela o pão que o diabo amassou,
Uma xícara rachada e duas colheres de dó

Não faltou a porção generosa de mel amargurado
E o arco de uma maçã envenenada.
O café? Passado!

Pela janela, a doce repugnância do dia:
A grama estava seca, a cerca derrubada
Um pneu furado e uma pomba abatida.

Manchei a camisa branca de rancor.
Mordi a língua. Não esqueci de pisar
O rabo do cachorro. Sentei no chão
Daquela cozinha de lástima profunda.
Claro, uma felpa acertou-me a bunda.

Senhor, socorro. Era só um café e ponto. 



domingo, 6 de fevereiro de 2022

 

 chorei fazendo coisas banais, chorei porque era domingo

atravessei uma rua, pisei em cacos de vidro,  

na esquina uma roseira cobria um muro pálido

um pai esperava o filho de braços abertos

uma porta rangia distante, um pássaro voava sem rumo

no chão estava escrito “se joga” nas duas metades de um bilhete 


tentei suturar em vão um coração partido

um pouco de cada em mim, e os meus olhos

marejados tingindo o arrastar do dia, meu próprio arrastar


chorei pensando coisas banais, chorei porque não estarei contigo

quando as chuvas do outono chegarem, num dia qualquer

de um mês qualquer, não vou pegar da tua mão,

não haverá música


às vinte e duas horas do dia 3 de junho não estará mais

pensando em mim, eu não ficarei mais sem jeito ao teu lado

não haverá arrepio, zelo, sonhos, olhos fechados


teu nome, que tanto amo, será apenas o nome de alguém

meu nome será apenas um nome


no final da rua, um minotauro vigiava um labirinto sem saída,

pensei que era o fim, então ele me abraçou, sentamos

estendeu-me a mão quando eu gaguejei:

ainda é verão e faz tanto frio

ainda é dia e por que tantas sombras?

ainda amo e tudo é passado

ainda sigo o rastro e estou tão perdido


chorei porque chegou a noite, porque caiu uma estrela, 

porque abri o livro e só restavam poemas que o tempo extinguiu 


chorei antevendo o equinócio da primavera:

quando o céu despejar luz sobre as flores,

não será a tua luz, não serão as minhas flores,

o céu que era nosso não mais será 


chorei lembrando a certeza trucidante de A vida breve:

“o mal não está em que a vida promete largo e 

dá estreito; o mal é que ela sempre dá e depois tira.”


chorei implorando um pouco mais de ar, que eu

pudesse ao menos chorar em paz… o coração não 

deu ouvidos, havia um amor infinito atravessado na minha garganta.


domingo, 10 de fevereiro de 2019

2019/01




Eu morri da primeira vez quando deixei de ser poeta
Não valia a pena, ao derredor muita gente havia partido:
Ver partir é o que mais parte um coração

A festa termina: o primeiro raio de sol aparece
Espuma e langor noturnos despedem-se
Do corpo ainda quente

A viagem de férias termina: ainda tem areia nos sapatos
Alguém cantarolava na cozinha uma poesia de Cummings, 
sem saber que era uma poesia de Cummings; 
cantarolava nalgum lugar alegremente além.
Alguém na varanda contava a história de quando chegaram ali, havia nada, só o chão e o mar;
Alguém no quintal rodopiava de olhos fechados;
Alguém no quarto sabia as notícias de quem ficou na cidade, 
chorava a saudade do ex namorado;
Alguém ali colecionava esses pequenos esplendores.

E assim seguiria até o fim dos términos, quando tudo de vez termina, 
quando se fecham os poros e os olhos.

Quando no mundo não cabe mais o nosso ódio e nem o nosso ócio. 
Quando o escritor de 23 anos já rompeu os tendões do seu tempo. E se joga.

Terminei. Era isto: Estou um pouco velho e cansado demais pra morrer. 
Vou ser poeta. Poeta do fim.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

"O nadador que fez um minuto de silêncio sozinho!"



A bolha da bolha
Da bolha da bolha insignificante.

O problema do problema
Do problema do problema irrelevante.

Tem corpo, furo, mãos,
Nariz e boca ou é só anjo-defunto?

Tem história, cicatriz, erros,
Deslize e amor ou está tudo impoluto?

Todo dia a lata de sardinhas fede
Alguém tem coração ou sede?
É tudo feito uma boca aberta
Cheia de mosca morta e Medo.

Parece limpo, justo e verdadeiro
Pena que tem cheiro de lixo!
Aponta o dedo, Perdoa o umbigo!

A bolha da bolha
Da bolha da bolha...

Viva a pátria dos dentes perfeitos,
Sem cárie nem tártaro. Os odontomoralistas!
Tudo fachada! Tudo fechado!
Fogueira, Mofo, Pedrada!

Viva a bolha o problema o ovo podre!

Olha, na frente de casa tem um preto
pobre bandido comendo na lata
de lixo.
Coitado, não é o seu dia! Muda o canal.
Olha o banner "Viva O Lula Na Bahia!"

O dia, a merda do dia-a-dia, a merda da bolha do dia-a-dia.

Depressive Capitalistic Championship:
Urubus em estado de êxtase; uma criança explodiu na Síria;
e um guardador de carros, artista antípoda alienígena, foi vencido!

O garçon de 24 anos foi até o quarto, deu-se um tiro no peito.
Na sala, a tela do computador ligada:

"O nadador que fez um minuto de silêncio sozinho!"