sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Boa noite!

Procurei a mesa do bar, nem mesa nos deixaram.
Mas havia a lua, e a mais cintilante quadratura da esfera:

Um amigo - aquele que dobrou o mar de hipóteses com a força dos amores impossíveis - perscrutava a vida em cada esquina dos meus apelos e celebrava cada cem de sete dos nosso erros.

Em cada palavra, cada lembrança e lapso,
Cada confissão onde eu demonstrava
Por A mais B, apesar do estrago, torto cálculo... que não era delírio, era dádiva.

Valia a pena a dúvida, o lamento, o declínio, o recomeço dos tempos, as parábolas e voltas da terra ao redor do Sol,
As ameaças do antropoceno, o gelo,
Anestesias, o terror, os romances médios, os poemas pequenos, avisos, amavios!

Nada disso. Era ele quem demonstrava com a certeza de quem já ruiu e manteve
a voz, o ritmo, a bruma das noites em plena rua e no último minuto, lançara as cordas do futuro.

Eu espalhei decadente tempestade. Ele devolveu um tango dos guarda-chuvas. 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Bom dia!

Desci as escadas já moído para o café
O coração feito manteiga derretida
Na mesa, a cesta de toalha xadrez
E com ela o pão que o diabo amassou,
Uma xícara rachada e duas colheres de dó

Não faltou a porção generosa de mel amargurado
E o arco de uma maçã envenenada.
O café? Passado!

Pela janela, a doce repugnância do dia:
A grama estava seca, a cerca derrubada
Um pneu furado e uma pomba abatida.

Manchei a camisa branca de rancor.
Mordi a língua. Não esqueci de pisar
O rabo do cachorro. Sentei no chão
Daquela cozinha de lástima profunda.
Claro, uma felpa acertou-me a bunda.

Senhor, socorro. Era só um café e ponto. 



domingo, 6 de fevereiro de 2022

 

 chorei fazendo coisas banais, chorei porque era domingo

atravessei uma rua, pisei em cacos de vidro,  

na esquina uma roseira cobria um muro pálido

um pai esperava o filho de braços abertos

uma porta rangia distante, um pássaro voava sem rumo

no chão estava escrito “se joga” nas duas metades de um bilhete 


tentei suturar em vão um coração partido

um pouco de cada em mim, e os meus olhos

marejados tingindo o arrastar do dia, meu próprio arrastar


chorei pensando coisas banais, chorei porque não estarei contigo

quando as chuvas do outono chegarem, num dia qualquer

de um mês qualquer, não vou pegar da tua mão,

não haverá música


às vinte e duas horas do dia 3 de junho não estará mais

pensando em mim, eu não ficarei mais sem jeito ao teu lado

não haverá arrepio, zelo, sonhos, olhos fechados


teu nome, que tanto amo, será apenas o nome de alguém

meu nome será apenas um nome


no final da rua, um minotauro vigiava um labirinto sem saída,

pensei que era o fim, então ele me abraçou, sentamos

estendeu-me a mão quando eu gaguejei:

ainda é verão e faz tanto frio

ainda é dia e por que tantas sombras?

ainda amo e tudo é passado

ainda sigo o rastro e estou tão perdido


chorei porque chegou a noite, porque caiu uma estrela, 

porque abri o livro e só restavam poemas que o tempo extinguiu 


chorei antevendo o equinócio da primavera:

quando o céu despejar luz sobre as flores,

não será a tua luz, não serão as minhas flores,

o céu que era nosso não mais será 


chorei lembrando a certeza trucidante de A vida breve:

“o mal não está em que a vida promete largo e 

dá estreito; o mal é que ela sempre dá e depois tira.”


chorei implorando um pouco mais de ar, que eu

pudesse ao menos chorar em paz… o coração não 

deu ouvidos, havia um amor infinito atravessado na minha garganta.


domingo, 10 de fevereiro de 2019

2019/01




Eu morri da primeira vez quando deixei de ser poeta
Não valia a pena, ao derredor muita gente havia partido:
Ver partir é o que mais parte um coração

A festa termina: o primeiro raio de sol aparece
Espuma e langor noturnos despedem-se
Do corpo ainda quente

A viagem de férias termina: ainda tem areia nos sapatos
Alguém cantarolava na cozinha uma poesia de Cummings, 
sem saber que era uma poesia de Cummings; 
cantarolava nalgum lugar alegremente além.
Alguém na varanda contava a história de quando chegaram ali, havia nada, só o chão e o mar;
Alguém no quintal rodopiava de olhos fechados;
Alguém no quarto sabia as notícias de quem ficou na cidade, 
chorava a saudade do ex namorado;
Alguém ali colecionava esses pequenos esplendores.

E assim seguiria até o fim dos términos, quando tudo de vez termina, 
quando se fecham os poros e os olhos.

Quando no mundo não cabe mais o nosso ódio e nem o nosso ócio. 
Quando o escritor de 23 anos já rompeu os tendões do seu tempo. E se joga.

Terminei. Era isto: Estou um pouco velho e cansado demais pra morrer. 
Vou ser poeta. Poeta do fim.